Alquimias

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LUÍSA VENTURINI Acabo de chegar. Fui a correr alçar estores, abrir janelas, assarapantar as gatas como de costume e tomar um duche rápido que me resgatou do pouco sono dormido. Pretensamente fresca, mas certamente bem-cheirosa, olhei para o relógio que, ímpio, mais parecia lançado numa competição contra mim do que pretender a parceria com que, há anos, nos habituámos a viver – tanto e tão bem que há mais de vinte não o trago no bolso. Preparo o café enquanto vejo o correio – três contas e um convite – e beberico-o enquanto instalo e ligo o portátil. Enfio literalmente uma túnica marroquina, muito roxa e com um bordado muito branco (nada como um bom contraste mediterrânico) e sento-me à secretária com aquele ar matinal e decidido que automatiza os dedos no teclado, lê meia dúzia de e-mails a eito e contabiliza mentalmente: são 7:30h, consigo traduzir dez páginas até à hora do almoço e mais cinco até meio da tarde. Depois, fico com umas horas soltas para desfiar tudo o que guardo desta viagem, do ram-ram do comboio, que me trouxe, de mão dada pela noite, de Madrid até aqui. Mais um gole de café, o bom aroma de um cigarro a soltar um filete branco-azulado, tão ondulante como uma odalisca, a avivar o cinzeiro, até ali imaculado e pronto. Abro a pastinha informática onde se avolumam os “.doc” e os “.pdf”, com o original do texto a traduzir e o meu ficheiro de tradução. Só que, por um abracadabra maquinal, abro uma página em branco.

Não passam três segundos e já vejo nela a sedução, a tentação de transformar subitamente todo o meu estrito, ascético, programa para o dia.

Começo pela premissa mais simples: hoje quero ser feliz. Não a mando do relógio, nem dos prazos, nem do cansaço. Ser feliz só porque sim, porque me apetece ser feliz, assim, sem mais, sem purismos Tomistas, êxtases Rumínicos nem transes Nietzschianos. E ser feliz aqui e agora é rememorar a Anunciação de Fra Angelico, que vi pela primeira vez ao vivo ontem no Prado, deixar-me encandear por toda aquela luz durante um momento eterno, saber-me hierofanicamente muito mais do que mim própria, sentir-me transportada para um lugar de mim que é todo o universo, solta de todas as amarras que me encurtam as asas e me tolhem o tempo.

Curiosamente, não cheguei a escrever na página em branco, traduzi dez páginas até à hora do almoço e, mais curiosamente, uma aurazinha de felicidade translucida as paredes, reverbera pelo espaço, dá às minhas gatas um olhar morno de deleite verde e a mim esta faculdade milimétrica e, no entanto, maravilhosa, de transformar o meu chumbo em ouro.

 

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