Aos meus amores

Aos meus amores

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 Luísa Venturini

Gosto da palavra “regaço”. É daqueles termos em que me parece que a acritude fonética se dissolve por completo (e simultaneamente) na ternura, que sempre sinto algo maternal, do seu significado. Se a memória não me atraiçoa, creio que o ouvi pela primeira vez a propósito da Rainha Santa Isabel e do seu milagre das rosas, teria eu uns cinco anos. Como tantos outros, tem caído em desuso, neste afã em que andamos de encolher a língua portuguesa, como se houvesse necessidade de espaço para o nosso pensamento e para as palavras que o traduzem nas suas múltiplas tonalidades.

E ocorreu-me isto porque ando com o coração feito um regaço aveludado, onde acolho os meus amores na alegria de mimá-los, no desejo vão de poder protegê-los sob essa asa, como se o sentimento que por eles nutro lhes pudesse servir de escudo. Mas a verdade é que mesmo não tendo as virtudes de uma armadura, acredito no conforto íntimo, alentador e apaziguante que nos concede a redondez de um regaço e, mais ainda, quando o temos no nosso coração.

E o que é absolutamente maravilhoso é que, como o amor que o inspira, não tem peso nem medida e, ao longo da vida, da pequena aldeia polvilhada por uns quantos corações familiares se foi tornando num verdadeiro reino, onde reinam por direito próprio quantos nele habitam, todos protagonistas da história única que o seu coração construiu com o meu, todos insubstituíveis, todos radiosos na sua própria cintilação.

Pois era isto mesmo que queria dizer a quantos vivem no meu regaço. A vida é sempre uma aventura extraordinária, todos sabemos isso. Só que por vossa causa, o meu coração é vaidoso – e ufana-se de o ser – porque o tornaram neste regaço a transbordar de mel, gemas e muita luz. Bem hajam!

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