LVAinda estou meio trémula de emoção. Chegou-me esta semana uma encomenda postal, registada como manda a precaução, vinda de Saint-Martin-sur-mer. Percebi imediatamente quem ma enviava: Alonso Velasco de Saavedra, o primo de Joaquín de Saavedra, o eloquente amigo a que o diário da minha tia Catarina tantas referências faz.

Além da gentileza das palavras que me dirigiu, brindou-me com a cópia do manuscrito do “Entre dos sonrisas”, que o Joaquín publicou em Salamanca, em 1954, e com cópias de alguma da correspondência trocada entre este e o seu pai. Toda uma corrente do pensamento, poesia e desafogo que entre os dois fluía desaguou assim no meu colo, tão desmerecedor e humilde quanto admirador e respeitoso.

A primeira coisa a que a minha curiosidade me impeliu foi, evidentemente, folhear todos aqueles alfarrábios em busca de qualquer coisa que mencionasse a Frida Kahlo, já que aquele opúsculo tinha sido publicado meses após a sua morte e eu sabia o quanto Joaquín se deixara impressionar pela bela e talentosa mexicana.

Não contava, contudo, que a sorte me favorecesse, pois já me apercebera que, apesar do desabafo fácil que o escritor tinha com aqueles a quem amava, a sua natureza tenderia para a interiorização e a reserva em ambientes menos restritos. Qual a minha surpresa quando me apercebo que, na sua ingenuidade, Joaquín de Saavedra dedicara praticamente todos os textos do seu opúsculo à senhora da Casa Azul, com epígrafes discretas, em itálico e de tamanho reduzido, onde se lia “Para F.”.

Creio ter identificado o texto que lhe dirige no dia em que tomou conhecimento da sua morte e onde lhe pergunta “como poderá o seu companheiro continuar a viver sem aquela lua picante como um sol, como poderá o seu amigo emergir da sua ausência, como poderão ambos sobreviver ao cataclismo de não ter nem coração nem peleja onde recolher-se, de não ter bem-me-quer a quem cuidar, de não ter alarde nem ciúme onde ferver a insónia?”.

Mas as surpresas não se ficaram por aí, que, numa outra página, sob o título “Tu corazón, mi acuarela”, desfia um poema, todo ele rimado em lágrimas e silêncio, sobre o pequeno quadro que a minha tia Catarina me deu e que ainda tenho na sala cá de casa. Mais: como se tudo isto ainda não bastasse, nas cartas trocadas com Agustín Velasco, acaba de me surgir, como flor a desabrochar diante dos meus olhos, o nome da minha tia Catarina, o “único amor com quem posso chorar outros amores, sem o risco de um alfinete nem de uma mordedura”.

Obviamente que ainda tenho de estar trémula de emoção.

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