Assim…

Assim…

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LUÍSA VENTURINI
Olha, vim até Clarissa.

O dia fechou-se muito antes de entardecer. Um novelo muito cinzento e redondo de Outono, uma calidez de manta no ar, um estrépito aqui e ali, ao longe. O Guadil apachorrenta-se com veludos de luva junto às margens. Ainda guardo nas mãos o perfume da alfazema que lilazeia os canteiros pelo caminho.

A Avenida das Laranjeiras hoje está muito pacata. De quando em quando chega-me o aroma queimado das lareiras, apesar de não fazer frio. Será da vontade de ninho das famílias… Eu, hoje, sinto-me arredondada como o dia e a música da água sabe-me tão bem, “assim”, sem os corrupios das gentes. Só o rio.

Vim para Clarissa logo de manhã, talvez por ter sonhado toda a noite contigo. Tu sabes que em Clarissa estás sempre mais perto, estejas tu onde estiveres, mesmo que estejas sempre aqui.

A novidade é que acabaram as obras na Abadia de Santa Adélia. Está lindíssima. O lioz recuperou todo o seu esplendor. Logo à noite, vão reinaugurá-la com um concerto nos claustros. Falla, no programa. Para aguçar ainda mais o apetite, o maestro convidado é o Yan Theodorsky. Não consegui bilhetes, claro, que quando soube já estava esgotado.

Manuel Falla… lembras-te? Há quantos anos vimos a Cristina Hoyos e o Antonio Gades no “El amor brujo” do Saura? Falar disto num dia cinzento em que me sinto redonda e debico um chá alourado com uma rodela de limão é quase um paradoxo, não é?

Mas tu sabes que em Clarissa eu fico sempre com espaço a mais para paradoxos, como este de escrever-te sem precisar de escrever-te. Consola-me pressentir o teu sorriso por te trazer, “assim”, desprevenidamente, a Clarissa e às fogueiras da Hoyos e do Gades, num dia outonal como um solo de flauta.

Olha, deve ter acabado de chegar ao largo o carrinho do homem das castanhas – é uma tentação inteira, quentinha e boa, a escapar-se por entre os pingos da chuva. Meia dúzia de pardalitos atrasados acabam de passar, com pressa de chegar a casa.

Eu aconchego-me melhor nas minhas lãs, torno a limpar os óculos e acabo de tomar o meu chá ruivo, com uma vontade doida de comer castanhas e ir para cima de um telhado dançar como Rumi, “assim”, apesar da chuva, apesar do dia precocemente entardecido, apesar da pacatez da Avenida das Laranjeiras.

Desconfio que hoje vou anoitecer por aqui. As luzes acenderam-se e os faróis dos carros acordam nuvens de pirilampos à minha frente. Em Clarissa, mesmo quando raramente não é Junho e a chuva traz às árvores sonatas de mil tons de verde e sépia, respiro-te sempre melhor e a tua presença impregna todos os meus horizontes.

Logo, aninhada no meu pensamento de ti, vou querer adormecer depressa para sonhar contigo outra vez a noite toda, para não deixar de estar “assim” contigo, para dançar contigo sobre os telhados de Clarissa e voar sobre o Guadil, ouvindo Falla, brincando com Rumi e Shams, acendendo fogueiras com a Hoyos, vestida de chuva ou de pirilampos, até amanhecer e ser outra vez Junho em Clarissa.

Mas para já, anda. Vem. A chuva parou. Muito provavelmente vou comer castanhas. Muito certamente vou sentar-me contigo à lareira da nossa casa. Em Clarissa ou em qualquer outro lugar.

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