Até já

0
904

O dia entardece, com aquela lentidão própria dos Domingos em que me encafuo numa saudade e fico a ouvir Silvio Rodriguez horas a fio. E eu, que habitualmente tão bem me escapo dos ardis do romantismo, fico-me por aqui à tua espera, com um olhar suspiroso e o pensamento pendurado no cabide de uma que outra estrofe – “Esto no es una elegía, ni es un romance, ni un verso. Más bien una acción de gracias por darle a mis ansias razón para un beso, una modesta corona encontrada en la aurora”… – com o coração a transbordar de ti.

Recordo aquela noite desses outros tempos em que viajavas ainda mais do que agora e que celebrámos o teu regresso, como dois namorados adolescentes, com um jantar ali perto do Guincho. Lembro- -me como, depois, dançámos no paredão ao som do mar, do marulhar do trânsito, das sei-lá-quantas-coisas que trauteavas e dos olhares incrédulos dos passantes. E lembro-me como depois, entre gargalhadas, nos prometemos não voltar a mencionar isso.

Diz-me a vozinha do aeroporto que já está confirmada a hora de chegada do teu voo. E a tarde lenta, lenta, e eu a minguar- -me pelas horas. Ao fim de tantos anos, ainda alimentamos este hábito de nos irmos receber à chegada e ao fim de tantos anos, ainda lateja a ansiedade pelo reencontro numa tremura de mãos, num que outro pulsar mais cavo nas veias, no frenesi do olhar pelo rol dos passageiros.

E o Silvio Rodriguez lá continua: “Como gasto papeles recordándote, como me haces hablar en el silencio, como no te me quitas de las ganas, aunque nadie me vea nunca contigo. Te doy una canción si abro una puerta y de la sombra sales tu. Te doy una canción de madrugada,cuando más quiero tu luz. Te doy una canción cuando apareces: el misterio del amor…” Ainda ontem me dizias da falta que te faz o sol da nossa casa e eu hoje a ver-me tão pasmada nesta lua domingueira. Vale- -me pensar que a manhã vai raiar dentro de poucas horas e que o disparate da bagagem vai atordoar o corredor e que antes da meia-noite todas as luzes estarão acesas e haverá confetti e pétalas de bem-me-queres a atapetar o soalho.

É mesmo o mistério do amor, meu amor. Até já…

COMPARTILHAR