Boas Festas

Boas Festas

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LUÍSA VENTURINIEstava a ver se me lembrava da terra onde nasci – com céus graníticos nos invernos e cascatas azuis a dosselar as primaveras; com campos repletos de duendes verdes e searas enxameadas de fadas muito louras; com olhos sempre prontos a latejar de maravilhamento e corações sem reposteiros.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – havia quatro estações e aniversários; havia zangas de família e as pessoas faziam as pazes e selavam acordos e contratos com um aperto de mão; as crianças conheciam o silêncio e o respeito, mas também o frio e a fome, e sonhavam noites a fio com uma surpresa nos sapatinhos.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – as ideias viviam emparedadas, quase todas, e as bocas traziam forcas para todas as palavras que ousassem transmiti-las; os coros gritavam com idêntico afã “Ámen” e “golo” e afogavam-se aiando dores, menores as mais das vezes, acompanhados à guitarra e à viola; os risos e as dolências dos acordeões e das concertinas passavam languidamente de moda e a presunção citadina omitia-os do cardápio.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – o privilégio da instrução chegava a vinte em cada cem, mas a humildade e a educação dançavam de mãos dadas; os poetas burilavam as senhas, os pintores reinventavam códigos e os músicos exorcizavam quaternariamente os calabouços; à mesa de família, não se falava de religião nem de política nem de negócios; e, por princípio ou criação, as bem-aventuranças estavam na moda, por pouco que delas se soubesse, e a ostentação era um pecado social fosse qual fosse a persuasão.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – viravam-se os casacos e trocavam-se punhos e colarinhos; a caneta de tinta permanente substituía o lápis quando a fluência da escrita já dispensava a rasura; faziam-se e desfaziam-se muitas bainhas para fazer render a roupa das crianças e o desperdício não fazia parte do vocabulário das famílias.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – as mulheres arrebanhavam-se em obediências e sujeições, ainda coisas, mas algumas já se tresmalhavam em rebuliços sadios passando a ser gente; a história era contada como um rosário doutrinal, com entremezes tão patrióticos e imperiais quanto falsos e colados a cuspo.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – tinha natais e muita gente e muitas viagens até às consoadas; e muito alarido de bacalhau, filhós, azevias e favas de bolo-rei e beijos repenicados de avós e muito colo de tias e muita música e brindes; sabia-se pouco de solstícios e ainda menos de outras coisas.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – parece que passou uma eternidade pelas estrelas, pelos pinheiros, pelos presépios; houve céus que se rasgaram e chãos que se fenderam e horizontes que se abriram num alvoroço de mudança e transfiguração. Mas, no meio de toda esta revoada, mantém-se, talvez inócuo, como um fio seguro e condutor, o mesmo sentimento em cada um de nós para cada um dos outros: que sejam Boas as vossas Festas!

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