LVLuísa Venturini

São sete da manhã e o café sabe-me que nem água em oásis. À medida de cada gole vou construindo as expectativas para o dia, demasiado atordoada ainda para me consentir os atropelos dos pensamentos apressados que fumegam, aflitivamente, da minha agenda. Ainda nem sequer olhei para ela nem tenciono fazê-lo antes do duche e do pequeno-almoço.

Como de costume, passeio-me pela casa de chávena na mão, como se precisasse todas as manhãs deste ritual de reconhecimento de território. Espreito pela janela e vejo as primeiras folhas cor de sépia nas árvores em frente. Um melro dá-me os bons dias e eu retribuo com um sorriso. Sem quê nem porquê ocorre-me que tenho de passar pela caixa do Multibanco para levantar dinheiro e pôr gasolina no carro antes de ir para o escritório. A ver se à hora de almoço tenho tempo de passar pelo supermercado e comprar uns mimos, porque a Ana e o Carlos ficaram de vir cá logo à noite. Não me posso esquecer das tâmaras e das águas tónicas.

Reparo que as janelas estão a precisar de ser lavadas. A chuvinha miúda deixou-as muito desmazeladas. Vou deixar um bilhete à Senhora Manuela para lhes dar um jeito e que me vá à lavandaria buscar o saia-e-casaco azul. Ah… é verdade! Hoje tenho reunião com a Dra. Mariana Almeida. Visto o quê? Hummm… talvez o vestido que comprei na Zara e o blazer que trouxe de Londres há dois anos. Por sorte, o Dr. Armando Gomes também vai estar presente. Sempre proporciona um trabalho mais criativo. Agora, com a Cristina de baixa, não sei se a Patrícia vai dar conta do recado, que a Rita ainda está muito verde… mas, verdade seja dita, ainda é tão novinha… Há-de fazer-se! É boa miúda, mas faz-me confusão vê-la entristecer todos os dias quando chega a hora de ir para casa. Algo se passa, só que ainda não percebi o quê. Fico sempre com vontade de lhe proporcionar um mimo.

Lá está o melro outra vez. São 7:10h. Ainda tenho tempo para outro café e dar uma vista de olhos pelas notícias. Um dia destes tenho de dar uma volta à sala. Se puser o sofá encostado na outra parede e mudar os cadeirões, aposto que fica um ambiente mais desafogado. No Sábado faço a experiência. No Sábado à tarde combinei ir com a Nini visitar a tia Fernanda, aí pelas cinco. Dá tempo. Mas o que ficava mesmo bem era colocar naquela parede o quadro grande que está no corredor. É uma ideia… também não sei por que faço questão em ver as notícias logo de manhã! Já não os posso ouvir! Mas o sofá daquele lado é capaz de ficar mesmo muito melhor. Quando tiver dinheiro, tenho de dar uma volta à cozinha. Não é urgente. Urgente mesmo é este segundo, maravilhoso, magistral, magnífico café. Nada melhor para me dar coragem para o dia. Pronto! Vamos lá aprontar-nos para a batalha. Telefone a esta hora?

  • Estou sim?
  • Dra. Ruth?
  • Sim, sou eu. Quem fala?
  • Dra. Ruth, desculpe, mas não tenho mais ninguém que me acuda. Sou a Rita. Fugi de casa. O meu marido quase que me matou esta noite. Pode levar-me ao hospital?
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