LVDe todo o gosto que tenho por tantas tradições portuguesas, talvez por causa de uma costela familiar ou simplesmente porque tenho a alma afinada desse modo, em boa parte dele o cante alentejano assume protagonismo, desde os meus tempos de adolescente.

Nesses anos, o cante não tinha, de todo, nem a difusão nem o reconhecimento nacional que esteve na origem da sua inscrição como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2014 e foi bonito de ver a caminhada que entretanto percorreu.

Mas para que essa caminhada não se desvie da sua rota, muita gente tem dado muito do seu coração, labor e tempo, mantendo e reforçando os grupos corais, promovendo o cante nas escolas e recuperando a viola campaniça. Conhecer pessoalmente alguns dos muitos artesãos deste trabalho maravilhoso é-me sempre motivo de contentamento e também de emoção, por ter a oportunidade de, de algum modo, aperceber-me da alma que está subjacente a tudo isto.

Ora bem, estava eu convidada para uma intervenção de poesia no âmbito de uma reunião de antigos alunos e eis senão quando, pela mão de pessoas minhas amigas, vejo entrar sala adentro nem mais nem menos do que o Pedro Mestre, o Armando Torrão, o António Caturra e João Cataluna – os “Rastolhice”, portanto! – acompanhados, como não poderia deixar de ser, por uma belíssima viola campaniça, construída pelo próprio Pedro Mestre, e por toda uma aura de alegria boa nos sorrisos, nos olhares e na atitude.

Muito grandes são as pessoas que sabem conservar a simplicidade sã do espírito, o relacionamento fácil e a predisposição para a amizade!

Por uma coincidência de amigos comuns, pude ter o imenso prazer de fruir um pouco mais da sua companhia e perceber um pouco melhor as linhas com que se cose uma tal dedicação – transpiram-na pela pele, pequeno que lhes é o corpo para contê-la, e derramam-na por onde quer que estejam, como se nos aspergissem de boa vontade, sol e cheiro a pão acabado de cozer.

E é claro que depois deste encontro tão prazeroso com quatro pessoas tão bonitas, estou ansiosa por que se repita em breve e, se possível, muitas vezes. Acho que não tarda nada, nada, estou de abalada até Serpa!

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