Coincidências

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LUÍSA VENTURINI
É muito engraçado: sempre que me encontro com a minha amiga Lídia Carrola e tenho o prazer de desfrutar das suas telas, fico com a imensa vontade de confidenciar com determinada galerista de Clarissa-a-Velha para que aí se faça uma exposição dos seus quadros – principalmente dos que se reúnem sob o título de “Naturezas Vivas”. Porquê? Eu explico.

Claro que tem a ver com o jogo cromático que a pintora, qual guardiã de fogos e tecelã de sensações, nos oferece com aquela prodigalidade quase esbanjadora que a arte oferece à obra. Mas tem principalmente a ver com o facto de nestas telas da Lídia Carrola como em Clarissa ser quase sempre o mês de Junho e sentir-me convidada a colher aqueles frutos para que em mim fiquem perenemente, como um “aide-mémoire” para aqueles dias em que não estou em Clarissa-a-Velha e sinto a vida como uma canja fria.

O aroma a damascos maduros perpassa aquelas janelas e é impossível não sentir as cintilações do azeite como prendas que qualquer dama antiga gostaria de trazer no colo, tal a exaltação dos crepúsculos que nos assoma, que nos asperge, que nos assoberba. No meu caso, é mesmo quase impossível não escutar em mim as palavras do Chico Buarque de Hollanda que o Milton Nascimento tão grandiosamente musicou – falo, claro, de “O Cio da Terra”.

Mais do que numa galeria, imagino estas telas em discretos cavaletes a entremearem as roseiras da Pérgola Junina, um burilado em mármore rosa dos finais do séc. XVIII, que ali quase ao fundo da Avenida das Laranjeiras nos permite descansar o olhar sobre o Rio Guadil e perdê-lo nas distâncias até ao Monte da Luz (nome carinhoso que a população, em tempos imemoriais, atribuiu ao pico mais alto da Serra da Lua).

Espero que este seja um bom pretexto para levar a minha amiga a conhecer por si própria os regalos de Clarissa e, assim, oferecer-se descansar de outras paisagens, talvez não menos solarengas, mas certamente mais austeras.

Acredito, até, que a sensibilidade da Lídia Carrola não resistirá perante os muitos recantos dos arredores medievos, de tons tão mediterrânicos como a sua alma, e que, mais cedo ou mais tarde, neles encontrará a inspiração para uma nova fase.

Pela parte que me toca, gostarei supinamente se o meu convite for aceite. Será essa, porventura, uma forma de lhe agradecer os muitos regalos com que me brinda a alma.

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