Luísa Venturini

Por fim, chegas!, com o teu equilíbrio, a tua harmonia, o teu equinócio, a tua promessa de uma equanimidade desejada e desejável. Por fim, chegas!, e meio mundo, meio universo natural te celebra e canta, como se pelo simples feito de chegares te cumprisses e nada mais te fosse pedido. És tu a acendedora da esperança e essa ignição sacra, que desde o último solstício se preparava, torna-se no cerne da nossa ambição conquistada, no bálsamo perfeito para amaciar, suturar, sublimar as nossas cicatrizes, desenquistá-las das tremenduras que o nosso longo Inverno lhes causou.

Por fim, chegas! Mas, desta vez, tens de chegar mais remoçada, com mais força nos rins e mais fertilidade na tua seiva, porque, desta vez, vais ter de não apenas chegar, mas chegar-nos. Poderás recorrer a todas as tuas alquimias, químicas e físicas e magias e ao que de mais, ou melhor, te aprouver. Mas terás de abrir caminho por entre muita aridez, muita pedra, muito abismo, tu, que nos chegas no dia a seguir a muito desamparo e muito luto. Só tu podes – deves! – mudar as cores das nossas vestes e o semblante da nossa alma, para que não sucumbamos e possamos reinventar um amanhã.

E desde já te segredo que terás de perdurar e esquecer o calendário dos outros para fixar-te no calendário dos teus – dos que te amam e te necessitam para lá de toda a condição.

E terás de precipitar uma chuvinha manda que, devagarinho, nos vá lavando a alma e recriando o espírito da terra para que ela volte a exalar o perfume que é só seu, e dar-nos Luas Cheias que endoideçam as marés e Luas Novas que nos convidem aos mais férteis silêncios.

Por fim, chegas!, e exorto-te, no teu poder, na tua íntima capacidade milagreira, maga, a que nos chegues corajosamente, denodadamente, fraternalmente, para que a nossa voz possa voltar a entoar um cântico e os nosso olhos possam voltar a olhar de frente a luz e os nossos corações possam, por graça apaziguadas, enfim, ressuscitar.

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