Consolação

Consolação

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LUÍSA VENTURINI

Eu chego com a Primavera e trago na pele veludos de andorinha para te amaciar as solidões. Vou levar-te na subtileza do meu voo manso, como se fosses um papagaio de papel e assim ilumines o céu triste que ainda permanece nos olhos das crianças. E vou tecer-te um casulo num beiral do meu coração, para que saibas sempre, sempre, que por muito que te exiles, sempre tens a tua casa ao regressares.

Vou cantarolar-te uma chuva miudinha para que te passeies por uma praia de cristais e os teus olhos voltem a ter o cintilar picante da alegria; e cozinhar-te aromas à lareira, para que te arredondes no colo da vida; e fechar bem as janelas que não queres para que o ruído da querela não te chegue e o vento não apague as tuas velas.

Vou mergulhar contigo no sonho que Consolação apeteça e trazer-te uma sonata que só tu vais entender. Vou purificar os óleos mais preciosos e neles embeber linhos que te afaguem as mãos e elas, livres de canseiras, possam voltar ao gesto que é o teu.

Vou resgatar-te dos dias e das noites em que te estilhaçaste de encontro ao vazio e fazer-te até esquecer o estrondo, o medo, a ansiedade, o nada além-da-porta, o nada aquém-da-porta e o momento trágico da ausência de ti. E vou dar-te uma oferenda de silêncio com uma grinalda do poema pressentido, para que a uses e, assim, a completes por muitos e muitos anos.

Trago-te também um chapéu de palha, para que os teus olhos não temam regressar ao horizonte iluminado, e uma pequena malga para que tenhas sempre onde guardar o amanhã.

Eu chego-te com a Primavera. Só tens de dar um passo que eu, eu, já estou a correr ao teu encontro (nos éteres soam esperanças vivaldinas, nos campos não tardarão amores-perfeitos, nos seres, os corações exultam).

Eu chego por ti com a Primavera.

Vem.

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