(cont.) Um dia em Macondo

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LUÍSA VENTURINI

Mal tinha eu terminado de perceber o intuito da encomenda, já a minha Soledad deixara para trás a rede e a mansidão da sesta e todo o seu abraço me envolveu. Creio mesmo que é nestes meus silêncios mais profundos que ela me ouve, me entende melhor. Será do seu sexto, ou talvez sétimo, sentido.

Serviu-me um rum de esporas vivas e aguardou pacientemente que as picadas me acordassem o sangue e acalmassem o sufoco do peito. E serviu-mo outra vez e outra ainda.

Dia e noite, noite e dia, a Soledad, o rum e eu vivemos abraçados, entranhados, endemoninhados, até quase perder os sentidos. Nos entaramelados da ressaca, desenfreava-se-me o pensamento em catadupas de imagens, de memórias de momentos e conversas em que, de tão boquiaberto, mais parecia tonto, mas isso não importava. Ocorriam-me as histórias da Índia e da Pérsia, um episódio no Egipto e uma aventura com berberes, no Norte de África, tudo entremeado como uma bela “tocineta” com mil mosaicos de Singapura. Até me falara do Bagavad Gita e de outras coisas que eu não entendi, dizendo-me, com um sorriso curioso que lhe rejuvenescia o semblante, para sempre respeitar o número cinco. Ainda hoje estou para saber porquê.

Passou-se um tempo. Seriam umas sete da tarde quando decidimos acordar. Ela levantou-se, imponente, e acendeu-me uma cigarrilha como se me desse um beijo. Perguntou-me se desceríamos ao pueblo, se não para falar com o cura, pelo menos para abraçar algum daqueles a quem Melquíades amara. Acenei com a cabeça, na pavidez daquele susto que me cortava as palavras e se grudava às ideias.

A Soledad quebrou o meu espanto, perguntando-me:

– E quando voltou de Singapura? Lembras-te?

Pois se me lembro! Ao vê-lo regressar a Macondo, depois de termos tomado como tão irremediavelmente certa a sua morte, não houve quem não replicasse Tomé o Dídimo, chegando até a picá-lo com uma agulha para lhe ver o sangue e tirar a limpo que não era alma penada. E ele ria, com frondosas gargalhadas, dando-nos palmadas nas costas e nos ombros, no júbilo do reencontro e da estima e, fazendo-se zangado, repreendendo-nos pela falta de maneiras, que estava com fome e sede e ainda ninguém lhe oferecera uma arepa que fosse, nem uma caneca de água, nem uma cadeira onde descansar as pernas.

Trazia tantas malas como de costume e recordo que, naqueles momentos de alegria, me irritei muito comigo por estar tão inapropriadamente curioso quanto ao que elas guardariam.

Foi quando ficámos os dois a olhar as lonjuras do céu que ele me disse que a morte era um sítio muito solitário. A verdade é que não o levei a sério. Como poderia ele regressar da morte? E, no entanto… A Soledad, porém, acreditava que Melquíades tinha um pacto com Deus.

– Pois se é cigano, hombre! Pois se nasceu en Hindustán, hombre!

Tinha a boca seca e o hálito tresnoitado do rum, mas, ainda assim, senti que a noite se aveludava à minha volta. Entre silêncios e mimos enganámos a fome com umas colheradas de frijoles e saímos. Estamos a caminho do pueblo, tão calados que parece que cantamos. A noite está de lua e a minha Soledad, de braço dado comigo, aponta ao longe. Sim, creio ver a sombra alongada de uma silhueta. Estreito-lhe o braço com mais força. Um arrepio de esperança ou de loucura percorre-me as entranhas. Será Melquíades? Não, não, não pode ser. E, no entanto…

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