Da perplexidade dos dias

Da perplexidade dos dias

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 Luísa Venturini

É um daqueles dias em que o sol me estala nos ouvidos e amplifica os sons, irritante e dolorosamente.

Olhando em volta, vejo entreaberto um portão do Inferno, com tristes hordas de belzebus, contentes das suas falácias, irrequietos e saltitantes na sua ânsia por mais e por pior, sob o aplauso ofegante e orquestrado de malhadas de carneiros tão acéfalos como ignorantes, ávidos de um poleiro, ao que jamais subirão, e simplesmente felizes por servirem a alcateia dominante.

Os outros rivalizam em malabarismos. Instruem, porém, as hostes para que a leitura seja a predicada e, assim, fique resguardada a malevolência do seu articulado e a perfídia das suas intenções.

Entretanto, as ovelhas vão aguardando em vão pelo seu pastor e sendo sacrificadas em quantas aras aprouverem aos tresloucados, aos psicopatas, aos enfermos de todo o mal.

Pelo meu lado, continuo a não entender a morbidez sórdida que leva outros, provavelmente feitos de igual inépcia, a propagandeá-los, quais papagaios incapazes de um momento de mocho, e a acariciar-lhes as maldosas penas que exibem que nem pavões de cores inversas.

A tristeza toma-me inexoravelmente, como a noite toma o dia. No entanto, a noite sabe que também inexoravelmente o dia regressará para tomá-la.

Como Virgílio, choro com a paisagem e no meu pequeno, ínfimo, íntimo mundo, escuto uma rosa, colhida para mim entre os nenúfares de um outro jardim de Giverny, que me sussurra, teimosamente, que há um cosmos bom para lá das lágrimas.

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