Luísa Venturini

“Conheci o Franco numa reunião do então Instituto de Cooperação. Numa situação de emergência humanitária, o Governo disponibilizava um Hercules para transportar para África quantos bens de primeira necessidade as várias ONGs envolvidas tivessem conseguido angariar.

A sala de reuniões, com o seu belo pé direito e tectos trabalhados, era inóspita, apesar da grande mesa de madeira oval. Recordo que o Dr. Luís C. da Nóbrega arrefeceu ainda mais o ambiente ao informar-nos que tudo que tinha sido ‘mais ou menos apalavrado’ telefonicamente ficava sem efeito, porque o Instituto recebera, entretanto, as manifestações de interesse de um número consideravelmente maior de agências. Tenho de confessar que, ao ouvi-lo, até a minha alma empalideceu. Converter 17 toneladas em 7 nuns quantos minutos era algo tão complicado quanto converter 7 em 17 em meia dúzia de horas. Apesar do susto súbito, refiz-me prontamente, sabendo e antecipando que a organização onde trabalhava iria resolver o assunto: uma unidade de competentes voluntários locais adquiriria nos países limítrofes essas mercadorias e transportá-las-ia numa frota de camiões proporcionada por outro voluntário generoso. De facto, assim sucedeu.

Reconheço que esta abrupta revisão dos planos me deixou para sempre este soslaio desconfiado para com certas instituições públicas.

Mas o susto não se ficou por ali. Na sua segunda intervenção, o Dr. Nóbrega informou-nos que as condições atmosféricas previstas obrigariam o avião a aterrar noutro aeroporto, a mil e poucos quilómetros de distância. E foi nesse momento que vi o Franco. No seu bom português, que não ocultava as suas origens italianas, disse-nos: ‘Tenho um enorme problema. Há mil e oitocentas pessoas que dependem da chegada desse avião. Já não têm comida nem quinino.’ O Dr. Nóbrega franziu o sobrolho e lamentou não poder fazer nada. Recordo que com a mão fiz um sinal ao Franco para que não desesperasse. Que falasse comigo.

Eu só tinha de fazer um telefonema. Mas a bela sala pombalina não tinha rede. Esperámos penosamente pelo fim da reunião e, já da rua, liguei ao chefe da nossa equipa em campo, pondo-o a par do problema. Disse-me que como não era suposto regressarem a esse local, teria de arranjar nem que fosse um helicóptero russo. Quanto à comida e ao quinino, não havia problema. Confirmar-me-ia assim que possível. Trocámos números de telemóvel o Franco e eu. Duas horas depois dava-me as coordenadas do local de entrega. Seis horas depois fomos jantar. Doze horas depois, a Irmã Maria de Jesus telefonava-nos: ‘Tanta comida! Tudo tão limpo! E quinino que chega para todos!’

No meio da enorme adversidade climatérica, o ‘meu’ chefe de equipa tranquilizava-me a cada chamada minha: ‘Já aterrámos. Ouve o rotor!’ ou ‘Fala com a Teresa para teres a certeza que regressámos bem.’

Quase quinze anos depois, janto com o Franco e brindamos com um beijo o nosso décimo segundo aniversário de casamento. Amanhã, ele embarca para o Sudão.”

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