LVLuísa Venturini

As vezes que me apeteceu que me levasses pela mão para, finalmente, dares-me a conhecer os teus mistérios… e, no entanto, sou eu que pego agora na tua mão e te levo, candidamente ou quase, pelo meu mundo, para que te apazigues e ganhes o abismo de uma outra perspectiva. Sim, sim, continuamos a falar de abismos, a gruta ambígua dos teus mistérios e, certamente, a falésia franca de todos os meus.

Então, vamos lá…

Damos as mãos como crianças tímidas e tu fazes de conta que confias. Eu estou vestida de flores e de arco-íris e digo coisas que te fazem rir, mas que consideras sem sentido. Entre duas gargalhadas dás um salto e mais três passos. É tudo quanto quero.

Desces aos tropeções e rindo a minha escadaria, sem sobressaltos de alma.

Dançamos de roda e a par como se não houvesse ontem nem sequer amanhã (é tão bom dançar de roda contigo!). O assombro apanha-nos em cada patamar. Mas a esperança é toda nossa. E assim a fé.

E a escada continua o seu convite para que te aprofundes e afundes por imos que julgo serem tão só os meus.

Dizes-me que vês a Lua Cheia. Respondo-te que já vejo o Sol Nascente. O teu braço traça um arco inteiro em volta do meu ombro. O meu braço traça um arco inteiro em volta do teu ombro. Sorris mais e dizes, como quem pensa alto: “Órbitas?” Eu sorrio e digo como quem não pensa: “Caos”.

E naquele silêncio profundo onde habitam os deuses, uma ilusão de mundo aflora. A fagulha do Universo estala. Ouve-se, ao fundo, a melopeia de um tango bom.

O teu sorriso irrompe-te pelos olhos enquanto se te cala a boca toda. Perguntas: “Cosmo?”

Detenho-me um momento. Curiosamente, um sopro com um tremendo odor a rosas faz-me pairar entre o além do que sou e o além do que serei. Tento olhar tudo em volta. Tento apreender todo o horizonte. E agora és tu que me fazes rir e sou eu que dou um salto e mais três passos. É tudo quanto queres.

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