Feliz Ano Novo

Feliz Ano Novo

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LUÍSA VENTURINI

Depois de um Natal passado à lareira do amor dos meus, onde não houve frestas por onde entrasse o frio das distâncias, regresso a casa e dou com as minhas gatas atarefadas a ensaiar as Janeiras a plenos pulmões, sem conseguirem acertar nem no tom nem no refrão, indiferentes ao bulício timpanal que me provocam e às apreensões e expectativas que me assolam nesta semana de ponte entre dois tempos.

Talvez por causa desta trilha sonora, desvaneceu-se-me a vontade de olhar para trás e apurou-se-me o entusiasmo de olhar para a frente, aferrada à velha ideia de que o melhor está sempre para vir e que a arrogância e prepotência vigentes vão escorrer pelo ralo da lucidez, enquanto jorros de humildade sabedora e sábia começarão a iluminar inteligentemente os nossos dias, soltando-nos dúvidas benéficas e bons sensos saudáveis.

E talvez por causa da lareira de amor dos meus me apeteça tanto desejar que o novo ciclo nos traga mais colo, mais sorriso, mais outros em nós e mais nós nos outros, menos rótulos, menos eufemismos, menos possessão, menos lepra de certezas absolutas e de verdades insofismáveis, menos ismos e muito mais philadelphia e muito mais philosophia e muito mais compaixão (cum passio, claro está).

E também talvez por causa do desgaste em que me vejo, em que nos vejo, apetece-me desejar que nos tornemos supinos na sublimidade da paciência para suportar o inalterável e exímios na criatividade da subversão que leva a novas rotas, que suscita reinvenções de amor com carácter de urgência, tão necessárias hoje como quando o Daniel Felipe para elas alertou há já tantos anos…, que leva a trespassar fronteiras que só existem porque uns quantos assim o pretenderam, sem nunca se ter provado a bondade da decisão – ou, pior, da lei.

As minhas gatas ensaiam as Janeiras e receio que nunca cheguem a acordo, quanto mais a um acorde benévolo, mas agradeço-lhes o mote: eu quero cantar as Janeiras e ir por aí e levar nos olhos, nos lábios e nas mãos “rabanadas, pão e vinho novo” e desejar, porta a porta, que o novo ano traga “uma candeia acesa” que termine de vez com a indigência que regressou aos nossos dias e que a expulse de vez das nossas vidas, para que descubramos, com empenho e convicção, a obra-prima que se esconde sob todo este lodo que se crê granito, sob todo este barro que se julga mármore.

Enfim, numa palavra, desejo-nos, de todo o coração, um feliz Ano Novo!

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