Estive a deliciar os olhos com a imagem de um relógio em espiral – uma espiral daquelas suficientemente fibonaccianas para serem perfeitas e de horas suficientemente ambíguas para serem minhas, que é como quem diz (à boa maneira da Constança Laura Portalegre), “apócrifas”.

Talvez seja esta a imagem que melhor retrata, realmente, as minhas horas, naquela sua pretensa infinitude abissal e auto-fágica que me deixa rever o fora-de-horas das minhas. E não quero com isto dizer que não continuo a absorver hora a hora e a des-horas a sabedoria do Eclesiastes. Porém, haver um Tempo para tudo não quererá dizer que há um tempo para tudo, já que o Tempo tem tempos que apenas o Tempo entende.

Mas sim, cada vez me convenço mais de que as minhas horas são fora-de-horas, estão fora-de-horas, como se fossem uma pseudo-sombra, esfíngica e difusa, da tal espiral perfeita e o mundo, tal como o vejo e o vivo, estivesse a 17º do real, do comum, dando-me sensações e percepções de intensidade e subtileza vária, mas sempre muito pessoal.

Nestes fora-de-horas das minhas horas, descortino o mundo (afasto mesmo as cortinas e, em momentos mais avessos, arranco-as para escancarar as janelas das ideias) e descortico as palavras (retiro-lhes a cortiça protectora, tantas vezes hipócrita, deixando-lhes o sentido à flor da pele, para poder tocar na intenção, na volição, que num momento distraído poderá escapulir-se pelas bainhas das discursos). Um pouco como olhar de lado para uma partida de xadrez para melhor entender o jogo.

À vista de terceiros poderei, até, ter um relógio disfuncional… Vá-se lá saber! O que de facto me importa é que nestas minhas horas fora-de-horas o Tempo decorre na liberdade de convocar os tempos que lhe aprouver, e eu lá sigo pela espiral, se calhar apenas vivendo, mas, quase sempre, a pensar que voo. É bom.

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