Há coisas estranhas

Há coisas estranhas

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LUÍSA VENTURINIHá coisas estranhas. Definitivamente. Como se movidas por vontade própria, tenho a sensação de que as circunstâncias fazem pactos entre elas, para nosso mal ou para nosso bem. Assim uma espécie de conspiração universal que nos tem na mira.

Eu explico: num belo dia, é a lâmpada do candeeiro do hall da casa que se funde. Tudo bem, é apenas natural. Passados não são cinco minutos, chega a vez da casa de banho ficar mergulhada em treva. Menos natural e mais incómodo, que preciso de um escadote para lá chegar. Mas tudo bem, prossegue-se a lida, limpa daqui, esfrega dali, arruma acolá.

Arrumam-se umas peças no roupeiro. A porta que supostamente é de correr, não corre. Não tuge nem muge. Nem para a frente nem para trás. Uma das gatas deve ter sapateado alguma coisa que impede a calha… bom, há que chamar alguém para resolver o assunto, que eu não tenho força para tanto. Não desmoralizo. Segue o vira. Só que agora o esquentador continua nos seus arquejos, mas a água não aquece.

Quero desligá-lo. O dito não responde. O susto instala-se. Peço ajuda, que estas histórias de esquentadores e de gás nunca me pareceram de fiar. Lá vem uma alma boa que lhe aplica um bisturi certeiro e o leva à semi-morte. Chama-se o técnico. Afinal era só do ventilador… uff! Do mal o menos. Mas, palavras não eram ditas… funde-se o candeeiro da cozinha. Sigo para o supermercado, disposta a adquirir toda uma remessa de lâmpadas, que as de reserva finaram-se.

Degrauzinho arredondado, chuvinha oleosa, folhas de Outono a pregar rasteiras… e lá vou eu num movimento de onda desengonçada estatelar-me em cima de um pobre de um cotovelo que nem tinha sido visto nem achado para nenhuma parte do meu dia.

O que teria o desditoso a ver com esquentadores e com lâmpadas fundidas? Que eu entenda, nada. Mas como as circunstâncias têm destas coisas quando fazem memorandos de entendimento entre elas, alguma razão haverá.

Mas não, não me limitei a ficar de pele esgarçada nem salpicada de papoilas. Não. Fractura mesmo. Daquelas que obrigam à grande discussão: nem desmaias nem vomitas, ouviste? Chama-se a ambulância, passa-se o fim-de-semana fora em grande convívio com enfermeiros, médicos, anestesistas, radiologistas, cirurgiões, auxiliares, etc. Ferro daqui, ferro dali, agrafos, muitos agrafos: um verdadeiro ferro-carril fica instalado no meu braço.

Retorna-se a casa. Expõe-se a parafernália na mesa de cabeceira: protector de estômago, analgésicos, anti-inflamatórios. As gatas interrogam-se, reclamando a falta de um espaço de circulação por elas muito estimado. Eu não reclamo, que apesar da limitação de movimentos, estou sem dores e as mãozinhas funcionam bem. Retomo o meu trabalho. Ah! É verdade! As lâmpadas! Vou ali comprá-las num instantinho.

Volto já (espero eu!).

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