LVLuísa Venturini

 

Já lá vai o tempo em que havia férias. Agora é mais lérias, suores e fadigas.

Mas amaciando as gelhas da alma, há festa pelas ruas, que o mês é de encontros. Nos largos da vila, o povo é enxame feito um carrossel entre farturinhas e vários folguedos. Sobejam cantigas, que não os dançares, enfunam-se os risos, dá-se tréguas aos medos, esquecem-se pêndulos ou outros quejandos, solta-se uma sesta como se usava antanho e espanejam-se ao ar os avós e os netos, uns mais em carriolas do que outros, à conta das cabriolices com que a vida os vai brindando.

Entre dois dolos, tiramos da naftalina uma espécie de folga, sacudimo-la bem, não vá o bafio transtornar-nos as ideias, e dobamos um casulo qual algodão-doce que nos seja albergue por dentro e por fora até finar-se o prazo do nosso consentimento. Esquecemos o acre requentado de todos aqueles dias em que sonhamos com estes, sem casulo que nos acuda nem sono que nos serene, e entre missas, procissões e outros enredos que os santos nos tragam, passeamo-nos à beira-rio ou à beira-mar como se nunca soubéssemos da pressa e os nossos pés só conhecessem a almofada fresca das relvas e das areias – como se os nossos corações só conhecessem o manso correr das águas e o cantar macio das cotovias.

Sorvemos o lazer que pelo Estio a vida nos empresta e atarantamos os ouvidos com ruídos terceiros, porém familiares e apenas por isso suportáveis, endomingando-nos as horas com o mel com que as pintamos. Falamos alto e rimos ainda mais alto para não correr o risco de não nos ouvirmos e assim acreditarmos que sim, que rimos, que estamos em festa, de alma desengelhada por uma vez no ano, que sim, que valeu a pena tudo até aqui e que hoje não, hoje não, só amanhã teremos tempo para fazer perguntas e catar respostas, se não à laia de Pessoa, à laia da pessoa que sabemos ser.

Sim, amanhã voltaremos aos requentados das lérias, dos suores e das fadigas, tornaremos a enfiar a folga na naftalina, a pendurar o casulo num cabide onde possamos vê-lo e a vestir o cinzento sem mel nem calendário. Mas hoje, hoje, por uma vez, hoje há-de ser tudo como se.

 

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