Lamentavelmente

Lamentavelmente

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LUÍSA VENTURINIApercebo-me que já começa a ser um número muito redondo o das minhas escritas motivadas ou dedicadas àqueles que de nós se vão apartando. Mas como evitá-lo se, com uma frequência algo sofisticada, os episódios de perda se vão avultando no cenário dos meus dias e se só nestes papéis “queimados pelos incêndios da minha alma” encontro um fio finíssimo e subtil que me vai levando a alguma reparação?

Nestes momentos, ando com o coração cheio de lembranças. Lembranças destes que se apartam e lembranças dos que ficam e a quem não conseguimos valer, porque continua a não haver palavras nem gestos para ajudar a ultrapassar o vazio. Só posso mesmo trazer muitas lembranças no coração e acreditar que os pensamentos se encontram como abraços bons, daqueles que transportam em si a quentura dos amores fraternos e estão imbuídos de uma vontade maternal de mitigação.

Foi no dia 9 de Outubro. Precisamente na data em que se cumpriam trinta e seis anos desde a morte de Jacques Brel e quatro da de Paulo Guilherme d’Eça Leal. A notícia correu pelos media, pelo facebook, pelos sítios da internet, por centenas de telemóveis. Breve, esclarecedora em cada uma das suas tenebrosas palavras, deixou todos (creio que digo bem: todos, família, amigos, colegas, alunos, público em geral), suspensos entre o crer e o não poder crer, o não querer crer.

A frase: Morreu o saxofonista Jorge Reis.

A Igreja de Arroios acolheu o ritual de passagem e o espaço encheu-se dos muitos e muitos de nós que tivemos o privilégio de conhecer um coração tão bom e um talento tão invulgar. Nos silêncios, quase se podia ouvir um imenso coro de requiem a emanar de todos aqueles músicos presentes, de todos aqueles não músicos presentes e até daqueles a quem razões maiores tinham forçado a ausência.

jorge reis
CRÉDITO DA FOTO: jazza-memuito.blogs.sapo.pt

A escadaria propiciou a solenidade, o respeito, o profundo afecto da ovação e, depois, houve aquele adeus delicado como uma renda de bilros com que, em nome de toda a gente, creio, os seus pares interpretaram uma peça da sua autoria, como um lenço muito branco que se acena no cais.

Conheci o Jorge através de grandes amigos comuns, um músico e a sua bela família. Recordo a última vez que tive o imenso prazer de o ver e ouvir integrado no Quinteto de Jazz, no Concerto que o Hot Clube de Portugal promoveu em 2012 no Mosteiro da Batalha e lamento não me ter forçado a criar a oportunidade para tornar a ouvi-lo ao vivo e a cores. Nunca se tem tempo, por uma razão ou outra. No dia do seu funeral, em que imprescindivelmente tive de ter o tempo para me despedir, dei comigo a pensar que sempre se incorre no mesmo erro… Lamentavelmente.

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