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“Returning home”, Thomas Wievegg

LVLuísa Venturini

Foi preciso ter vivido tudo aquilo para perceber que, nos tempos em que sonhava o futuro, acreditava em milagres.

Esses tinham sido anos em que a vida se lhe afigurava como um campo colorido e acolhedor, de braços estendidos a convidar a sua descoberta. Sentia que a alma se lhe enfunava qual Lancelote, qual Parsifal, qual Galaaz. Era o empolgamento da Demanda.

Passadas umas quantas clareiras e searas férteis, apercebeu-se como se afuselavam os rios e como teria de transpor-se para não desfalecer nos desertos nem sucumbir aos gelos das cordilheiras nem perecer às invectivas dos predadores nem às promessas dos inconsequentes nem às juras dos néscios.

Lembrava-se, com uma clareza toda de minúcias feita, da lareira sempre acesa da Casa da sua infância, das sedas do regaço do seu Amor e do perfume bom dos Filhos nos seus berços. Na verdade, compreendia agora, era essa lembrança o seu suporte.

Seria ainda mancebo quando começou a ver-se de ideais esgarçados. Mas, nesses tempos, ainda tinha por perto a Tecelã e guardava junto ao coração a lamparina que o Pai lhe dera no dia em que cumprira sete anos.

Depois, com os primeiros lutos, chegou-lhe o sufoco da revolta e o desarrimo das ideias e, sem já saber onde deixara a lamparina, só lhe chegava de muito, muito longe a persistente voz da Tecelã. Há muito que esquecera Lancelote, quanto mais Parsifal, e nem recordava já o nome de Galaaz.

Soube de mínguas e de sobressaltos. Conheceu o medo e cruzou-se por duas, não, três vezes com a Morte. Na verdade, compreendia agora, também fora após esses momentos que Khidr o Verde lhe aparecera no caminho.

Teria quarenta anos quanto voltou a lembrar-se da lamparina e, por um tremendo acaso, a encontrou sem sequer a ter procurado, junto de umas chaves muito antigas.

Estava cansado, mas deu-se conta que os pés não lhe doíam, que descortinava paisagens e se percebia de regresso a casa. Viu as papoilas e os silvados, as pedras e as areias, as clareiras e as serras. Reconheceu constelações e carreiros de formigas. Protegeu-se de trovoadas e de mordeduras, nem sempre com a mesma competência. Teve febres e convalesceu. Soltou risos e rejubilou.

Levou a mão direita à lamparina e aos ouvidos chegou-lhe a voz da Tecelã. Lancelote, Parsifal e Galaaz acenaram-lhe na distância. Olhando em volta, reconheceu o horizonte todo. Surgido sabe-se lá donde, Khidr o Verde sentou-se a seu lado e, com um gesto afectuoso, ofereceu-lhe uma malga de água. Depois, com um sorriso, perguntou-lhe:

– Quererás falar-me de milagres, meu Irmão?

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