Outra vez às voltas com a minha tia Catarina

Outra vez às voltas com a minha tia Catarina

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LUÍSA VENTURINIApesar de nunca ter casado e pertencer a uma geração em que as mulheres eram, na sua maioria, sentenciadas a esquivarem-se da vida, a minha tia Catarina nunca foi uma “solteirona” (palavrinha curiosa, bem encharcada do preconceito de toda uma época).

Porque é Setembro, para mim “o suave mês” e porque acredito que a minha tia Catarina faria anos em Setembro, provavelmente a 14 (que assim, na minha sinestesia, resultam na combinação perfeita das mansas tonalidades sépia com as alegrias de fulgores mais rubros) e porque ao arrumar uns espaventos de livros e papéis, mais uma vez me saltou aos olhos o seu diário, não resisti a relê-la, arredondando-me o serão com alguns gomos dos seus dias.

Ainda me pergunto por que terão bulido tanto comigo as referências que faz ao Joaquín de Saavedra. É verdade que é um dos nomes que mais permeia a suas páginas e é verdade, pelo que escreve, que raramente coincidiram em lugar e tempo. Mas dei comigo a pensar (com esta cabeça domesticada por outras gerações post-Freudianas) se a minha tia Catarina não se teria inventado um amor hollywoodesco com esse tal Joaquín, nem que fosse para afugentar solidões e outros estigmas.

Por outro lado, não sei se ele não faria outro tanto, arranjando sempre enredo epistolar para fazer-lhe chegar poemas em labareda, partilhar com ela intimidades intelectuais e buscar-lhe colos cúmplices para sua sensibilidade desabrida.

O certo é que se escutavam. Mais certo ainda que se entendiam.

Reli a página em que ela descreve como soube do seu suicídio, especialmente o último parágrafo: “Hoje, por volta do meio-dia, ouvi o carteiro. Deixara-me um sobrescrito sóbrio, manuscrito numa bela letra esguia e ligeiramente inclinada para a direita. Lá dentro, um pequeno auto-retrato da Frida, pincelado a café. Como num filme mudo, entendi. Deixei duas flores de cor gulosa na caixa do correio e despedi-me de Joaquín de Saavedra para todo o sempre.”

Não fosse ter-lhe ele enviado aquele retrato, não fosse gulosa a cor das flores e não me teria atrevido a enveredar por esta pseudo-análise. Aliás, estou convencida que, a despedir-se para todo o sempre, não terá sido do Joaquín de Saavedra, mas do altar de esperança que se acostumara a visitar há tantos anos que passara a fazer tão parte dos seus dias como o despretensioso gesto de pentear-se de manhã e à noite. Com ele continuaria a conversar em cada momento, fazendo dessa intimidade um espanta-espíritos, daqueles que até trauteiam pensamentos nos dias mais salobres.

Decididamente, hoje vou pôr ao lume uma sopa de alho francês e comer amoras à sobremesa, para recordá-la melhor. Sob o retrato da Kahlo que ainda me ilumina a sala, talvez me decida a pôr umas flores de cor gulosa em honra dos amores inventados, dos Joaquíns de Saavedra desta vida e da minha especialíssima tia Catarina.

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