Ouve lá…

Ouve lá…

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LUÍSA VENTURINI

Luísa Venturini

Ouve lá… Tenho tantas saudades tuas… Andas longe há tanto tempo…

Eu sei, eu sei que te guardo e que até cantamos quando faz frio. E sei como largamos papagaios para celebrar a Primavera e nos aninhamos como órfãos à lareira, mantendo a boa tradição do queijo e do vinho tinto. Claro que é tudo isso. Mas hoje, hoje, tenho tantas saudades tuas…

Não me chegam as cartas nem as certezas nem os filmes em tempo real. Quero que me chegue o sabor a sal da tua pele e quero sentir o calor bom do teu abraço.

É tão estranho. Não posso fazer nada. Eu estou aqui e tu estás acolá sem recta rápida que nos una. É este entrar na casa que é a nossa e ver os pássaros tristes no poleiro e sentir os ombros órfãos ao fim do dia. É Abril, meu amor, e eu choro-te todos os dias neste cansaço de estar sempre à tua espera.

Eu sei que me deste um girassol e os poemas de Thiago de Mello e os madrigais rosados do Eugénio e que me foste acácia e que valsaste comigo que nem Chico, apesar de eu não ter vestido novo para estrear…

Passeio o cão quatro vezes por dia porque gosto de animar o meu amigo. Converso com ele, sabes? E ele entende-me. Aprendemos os dois a falar um canês muito nosso. Falo-lhe de ti e ele rejubila, matando as saudades uma a uma. Depois, aconchega-se a mim, tentando matar-me as saudades uma a uma. E lança-me aquele olhar todo escorreito e mel e chama a minha mão para o abraço, com aquela sua pata muito, muito humana, muito amiga. Quando digo o teu nome, alça as orelhas e dá-me uma lambidela rápida na mão, não vá eu ficar lamechas. Depois, aninha-se aos meus pés, no conforto do meu amor por ele e sabendo que o meu pensamento está todo cheio de ti.

Ouve lá… Um dar de mãos também é importante. Uma febre, um fervor, um delírio na desarrumação da casa, um desconcerto de gostos, um desarranjo de planos, um desencontro de entre-almas ao fim da tarde (pelo prazer de um conforto ao fim da noite), tudo me falta.

Faltas-me. Fazes-me falta. Ponho nos dedos os anéis que tu me deste e nos lençóis a urdidura dos teus sentidos e nos dias a tua sombra, a tua sombra, a tua sombra…

Ouve lá… o tempo é tão curto.

…Percebes?

…Será que percebes?

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