Pessoas cheias de Graça

Pessoas cheias de Graça

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LUÍSA VENTURINI

Luísa Venturini

Depois da abençoada surpresa da visita de uns amigos, fiquei com imensa vontade de, como quem lança uma cana ao mar, anzolar outra vez o mais que conhecido mote da Gertrude Stein. Porque por muitas certezas identitárias que tenhamos – nem que sejam essas que confirmam o muito que nos desconhecemos – há mundos onde a rosa é mais rosa e outros, em que por muito rosa que a rosa seja, só sente em si o fenecer lento do desgaste e da claustrofobia.

Continuo a extasiar-me com as múltiplas interacções que geramos e com as múltiplas formas como cada uma nos afecta no difícil funambulismo que é o dia-a-dia. E, por vezes, como necessitamos duma saudável licença sabática para nos retirarmos de tudo e de todos e digerirmos lentamente os impactos que tudo e todos têm em nós.

Confesso que ando tentada a forçar-me uma tal licença. Sendo como sou, o maior desafio ao longo da vida tem sido o de cultivar uma certa equanimidade e a verdade é que não pareço estar à altura do projecto, vivendo como sempre vivo com uma intensidade inclemente lágrimas e risos, maldades e bondades, em todas as suas declinações.

Claro que isto tem um sal especialmente alegre e prazeroso quando vejo a minha rosa florescer porque há pessoas cheias de Graça, que só por existirem parecem regá-la a tempo inteiro e são mundos tão grandes e aliciantes que a obrigam a desabrochar e crescer em cor e perfume.

Idealmente, o mundo esconso de muitas outras não me afectaria. Mas afecta. Confunde-me, desassossega-me e murcha-me a alma. É nesses momentos que me apetece refugiar-me em Clarissa-a-Velha, perder-me pelo suave labirinto da baixa antiga, passear-me em silêncio pelos claustros da Abadia e repetir-me, à laia de mantra, como a Stein: Rose is a rose is a rose is a rose…

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