Luísa Venturini

  • O dia vai alto; no termómetro da minha paciência o mercúrio exibe-se no negativo; uma néscia parada ataviada presume-se corso de luminárias; a verborreia trauliteira chafurda nos meus ouvidos. Fecho as janelas num gesto abrupto e releio a entrevista dada por Umberto ao Expresso, em 2015, para que o seu Eco me recobre.
  • O umbigocentrismo, como a umbigometria, não são bons conselheiros; por paradoxal que me pareça, não creio que alguma vez possam gerar uma mundividência e, ainda menos, uma utopia. Está a faltar-me The New Atlantis na mesa de cabeceira.
  • Leio a frase de José Pacheco Pereira (Público, 27/02), “Há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são”, e sinto a sua litania a entranhar-se-me nas vísceras; há anos que assisto a coisas que na minha pobre cabeça julgava irrepetíveis; esta civilização, tal como a concebi, já fede de morta. Continuo a querer viajar pelo ontem para pensar o amanhã – espanta-me que não sejamos mais nessa viagem.
  • Perguntava Umberto Eco: “A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não”. Mas, por alguma razão, o ser humano recusa-se a navegar a mudança e “as coisas são como são” mesmo quando já não o são e é por isso que “há uma certa tristeza nisto tudo”, inoculados que andamos da desesperança que, para alguns, terá valor inefável e salvífico. O fumo azulado de um cigarro lembra-me a exalação da alma.
  • Caudais de gentes atarantam a que também foi a amada de Zeus; e ela, atontada, obesa de si mesma, repete “as coisas são como são”, convicta de que por proferi-lo o verá cumprido, sem perceber sequer o que as coisas são, nem que o tempo e a história passaram pelas suas coisas e que as suas coisas já não são as mesmas. Confrange-me vê-la travestida do que foi, mergulhada no constrangimento das suas atrofias.
  • O enguiço de andar com o Inverno colado à pele quebranta; barros e calafrios confundem o discernimento; sobram achaques, mais da alma. A Primavera não tarda; o mês dela (e nosso) chegará agora. Preparo-me para me desfazer de mofos e outras friagens no ímpeto da transição. Num assomo panteísta, aguardo-a com fervores remoçados (pode ser que ela chegue bem e em toda a sua glória). Subitamente, apetece ouvir Vivaldi.

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