Que manhã esta!

Que manhã esta!

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Abeiro-me do “loch” com uma chávena de café acabadinho de fazer. Ataranto-me na pressa do despertar, do sair do lusco-fusco que apaga a noite urbana, já de si tão raramente estrelada. Imagino braçados redondos, acolchoados, a cheirar a alfazema, que me chamem devagar e sem ruído.

Apetece-me o “loch”, o vale, o intervalo entre os pontos, o imenso interstício das galáxias ruidosas e fulgurantes onde, de vez em quando, encontro o silêncio e deleito-me na visão dos rastros que continuam a ser luz e que até podem guiar, apesar de já só existirem para os olhos, a distâncias de tempos, de espaços, de matérias que já deixaram de o ser. Olho para o céu, nesses silêncios, e vejo as lamparinas acesas por pavios e óleos lentamente consumidos em antanhos de que não há sequer memória (só há luz).

Não dormi o suficiente e o café parece desprovido da costumeira qualidade de arrumador de neurónios. Duas ou três ideias continuam a acotovelar-se na sua ânsia de se traduzirem em qualquer coisa que faça sentido. Mas o estaleiro está desarrumado e as pilhas de palavras estorvam-se entre si e dói-me a cabeça, e doem-me os pés e as mãos para que me apeteça procurá-las, catá-las com cuidado. Acabo por tropeçar e fazê-las cair, sem querer, com mais ou menos estrondo. Fico de braços cruzados, encostada a uma parede, estupidamente à espera que todo aquele reboco seja abraço ou porta ou ponte, como se as palavras pudessem vir ter comigo animadas da sua própria vontade. E é quando me canso de esperar que me calo, que percebo a espera e que, finalmente, num suspiro de esperança ou desespero, olho o céu – dossel minuciosamente entretecido de rastros de memória – tentando vislumbrar algum pequeno ponto-de-assis que me valha neste desamparo de início de dia.

Continuo a beberricar o meu café, empurrando o atordoamento com a força possível nesta hora estremunhada. E é ainda com as pálpebras a meia haste e uma vontade de sonho na cabeça que enfrento a água e me arrumo e arroupo entre aromas e pensamentos de rastros de luz.

Evito olhar para o relógio, que anda a um compasso que hoje não é o meu.

Repito-me, mântrica e terapeuticamente: Não há pressa. Não há pressa.

Pronto, vamos lá começar tudo outra vez: Abeiro-me da secretária com uma chávena de café acabadinho de fazer. Bom dia!

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