São cinco da tarde e…

São cinco da tarde e…

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LUÍSA VENTURINI

São cinco da tarde e não estou em Madrid.

De todas as constatações pela negativa, de tantas infindas miríades de probabilidades, aquele rouxinol que sempre se traz no peito acaba de me cantar esta, vá lá saber-se por que razão. (Certamente estarei em algum lugar, embora hoje só tenha, como um pequeno felino ao qual se feche uma porta, esta consciência estranha de onde não estou.)

Mas, pronto: o sublinhado do dia é esse. Faria talvez mais sentido ter-me ocorrido que são cinco da tarde e não estou em Granada, oferecendo-me a ponte inevitável com Federico García Lorca e com Antonio Machado e, naturalmente, com Boabdil.

No entanto, prefiro não mergulhar nas dores andaluzas, que as lusas já me bastam, e, elegendo esse lugar onde não estou, deixo-me ir pelo Paseo de la Castellana, visto-me na branquidão alegre das fachadas, devaneio entre arvoredos mansos e sou mesmo capaz de aceitar o convite prazeroso de uma esplanada ali no Paseo de Recoletos, com o olhar cheio de horizonte, provavelmente a divagar que são cinco da tarde e não estou neste lugar onde me ocorreu que não estou em Madrid.

Seja como for, pelo menos evoco esta hora pré-crepuscular em que começam a germinar os poemas e as pontas dos dedos anseiam por cordas e por teclas, já tendo por dentro dos ouvidos o trautear da alma, e percebo que a hora me é mais casa do que o sítio e que já são cinco da tarde há não sei quantas horas e que o presente é apenas este efémero de consciência, este nada que se torna tudo, este ninho fecundo de todas as possibilidades, incluindo a suposta realidade de talvez não serem bem cinco da tarde e de que, porventura, estou aqui.

E nessa errância por dentro desta errância, nesse vagabundear entre o que é, o que não é e o que talvez possa ser, nesta animada correria entre patamares, neste agitado trocar de lentes, apercebo-me subitamente que é por estes novos pontos de fuga (literalmente, pontos para onde fujo para me oferecer outra perspectiva) que consigo trazer-me de regresso ao meu tempo e ao meu espaço com a visão lavada que rasga padrões, tendências e rotinas e me lança na aliciante aventura da redescoberta dos “ses” que me aprouverem, sem ter sequer de obrigar-me à dúvida condicional, condicionante (nem, já agora, à condição duvidosa).

Pois então muito bem: possivelmente serão cinco da tarde, possivelmente não estou em Madrid.

Na minha casa, como música de fundo, atarantam-se gatos e amores e eu, finalmente, aprendo a pintar com Wang-Fo.

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