LVLuísa Venturini

Será uma indisposição biliar a causar-me este engulho que me verdeja quanto os ouvidos escutam e os olhos vêem, que tudo me parece andar às avessas. A falta de memória, para tantos dramático sinal de enfermidade, tem vindo a tornar-se predicado, embrenha-se nas arengas, sem dó nem piedade, e os aranzéis desfiam-nos rosários de lérias, como se a estafada afirmação de uma impostura a tornasse numa verdade iluminante e a inversa fosse igualmente verdadeira. Importamos conceitos, para nós, contra-natura e exportamo-nos como se nos sobrássemos. Aceitamos a lixívia que nos branqueia as ideias, quase sem dar por isso. E, excepção feita à escassa virtude que só existe mesmo para confirmar a regra, praticamente só vejo disto e só escuto disto, seja para onde for que me disponha a olhar e a ouvir. Resta-me apenas constatar que, entre pecados e pragas, são sempre os mesmos a ficar esmagados, os tais que ainda crêem na falácia de que alguma voz terão, os tais que vão sendo convenientemente esmaecidos da memória desses outros. Pior: sempre os mesmos, a quem se pretende desfigurar a língua e rasurar os símbolos que nos evitariam uma, aparentemente almejada, diluição identitária, e nos devolveriam brios e ganas. Pergunto-me uma e outra vez: será disto que são feitos os Portugueses? Será isto o que chamamos Portugal?

E é esta a razão por que não resisto a reproduzir aqui parte do que já em 2011 escrevi neste mesmo espaço, a propósito doutro pretexto, mas exactamente pelos mesmos motivos.

“Corria o ano de 1139. A devoção a Santiago de Compostela espraiara-se por Galiza, Leão, Castela e o então condado Portucalense, tornando-o patrono destes territórios, e alastrava-se pela Europa, inspirando peregrinos d’aquém e d’além Pirinéus. Reza a história que, nesse ano de 1139, em Ourique, Afonso, filho de Henrique e de Tareja e consagrado a Santiago, no dia em que cumpria 30 anos e depois de uma espantosa vitória, se auto-proclama Rei de Portugal em pleno campo de batalha, sendo aí aclamado pelas suas tropas. Era o dia 25 de Julho – nascia um novo Reino no dia do aniversário do seu primeiro rei e, precisamente, no dia de Santiago Maior.

No entanto, seria preciso mais algum tempo para que um Tratado, o de Zamora, fosse assinado, reconhecendo a independência de Portugal. Corria o ano de 1143 e o dia era o 5 de Outubro.

Entre conquistas e povoamentos, crises e pestes, expansão e aventura, o país foi-se construindo e afirmando na arena internacional. Com cerca de quatrocentos anos de idade, Portugal vive o grande sobressalto e as Cortes reconhecem, como sucessor legítimo ao trono português, Filipe – neto de D. Manuel I, filho de Isabel de Portugal e de ser marido, Carlos V de Espanha. Contudo, Filipe I não foi seguido pelo seu filho e ainda menos pelo seu neto, quanto ao respeito com que tratou a nossa autonomia e Portugal vê-se perante a asfixia do jugo estrangeiro. Mas sessenta anos não tinham bastado para apagar nem a memória da nação nem um denodo idêntico ao que animara o primeiro Afonso e quarenta homens dão corpo à revolta, que culminaria, vinte e oito anos depois, nesse outro Tratado de Lisboa. Corria o ano de 1640. Era o dia 1 de Dezembro.”

Pois é. Com memória – esta e outra. Sem lixívia. Para que conste: Por tudo isto nos chamamos Portugueses. Por tudo isto existe Portugal.

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