Sobre angústias e cansaços

Sobre angústias e cansaços

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LUÍSA VENTURINI

Nada me cansa mais do que a angústia. E é curioso como uma palavrinha, aparentemente tão inofensiva, contém um significado tão amplo e multifacetado, senão mesmo entrançado. Nela se implicam em doses diversas, porém, amiúde simultâneas, a ansiedade, a tensão, o receio, a nostalgia, a insegurança, a dor e a expectativa. Indiscutivelmente, essa é uma sensação estranha de inquietação que me toma até as vísceras e que me deixa exausta – tanto mais que a minha insónia nela encontra bom pretexto para justificar-se e, impante de gáudio e glória, instalar-se durante uns quantos dias, até que o corpo se imponha e lhe grite “basta!” com um sono bom, profundo, de muitas horas.

Vejo a angústia também como uma espécie de dor de alma, fininha, insidiosa e de garra afiada que nem anzol, de que mal me dou conta quando se ferra em mim e que me levará muito trabalho e tempo para afugentar, a não ser que uma qualquer circunstância especialmente feliz a escorrace sem mais nem menos, de um momento para o outro.

Ocorre-me que o Sartre falava da angústia como consequência da nossa condenação à liberdade. Pois sim, também será isso, que a responsabilidade constante pela opção, apesar de intrinsecamente natural e nem sempre consciente, não deixará de ser razão de tensão permanente. Mas a angústia, tal como a sinto e observo, e muito possivelmente por ser filha dessa liberdade, parece mais enteada da contrariedade com que coabitamos nos nossos dias, num mundo cada vez mais materialista e no qual, paradoxalmente, a materialidade cada vez nos torna mais infelizes e incompletos: criou-se o mítico objectivo e desfizeram-se as ferramentas eficazes para, mais que não seja, tentar alcançá-lo. E o pior, e talvez o mais angustiante, nesta panóplia em que a vida se tornou, é que não há inocentes, pois todos, de algum modo, somos coniventes, em palavras, pensamentos, actos e omissões.

Enfim… Mais vale pensar que já chegou o mês de Maio, que muitas flores vão começar a pintalgar a paisagem para alegria dos nossos olhos e que, apesar de não haver cura para as minhas saudades e, quiçá, para as minhas angústias, só posso senti-las porque, apesar de muito contrariada, ainda estou aqui, condenada à minha liberdade. Valha-me isso!

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