Um dia em Macondo

Um dia em Macondo

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LUÍSA VENTURINI

Depois de muitas, muitas horas de apoquentação, avistei, finalmente, que ao fundo do caminho resfolegava a poeira levantada pelos cascos de um burro cansado, que só vi passados alguns lentos momentos.

Percebi rapidamente que era o Juanito. Aliás, só podia ser o Juanito, pois àquela hora de estrépito de sol, silêncio e ausência, não há vivalma que se atreva por aqueles contrastes de deserto-a-prenunciar-o-pântano.

Peguei no meu chapéu já meio ratado nas orlas maduras de muitos anos e fiquei ali pasmado no alpendre, a ouvir o estilhaçar da brita sob os cascos e a ver os resfôlegos da poeira, como se o chão respirasse e fizesse questão de mostrar-me os seus miasmas.

A quietude estúpida do esplendor solarengo das cinco da tarde dá ao ar magias de sentimento e som. Claro que era o Juanito. Claro que era o seu burro. Mas que raio o traria aqui, nesta tarde de inferno, onde até as sombras se escondem sob os ulmeiros de um rio forasteiro desta terra?

Ajeitei os suspensórios, consertei o cós das calças na cintura – como se ainda tivesse cintura! – e ri a bom rir para comigo ao ver a pança bonacheirona que deixou de preocupar-me há mais, mas há muito mais!, de vinte anos.

Com uma passada quase solene, fui buscar uma cigarrilha tão morena como a minha Soledad, acendi-a ainda na cozinha e, com estilo, dei a primeira baforada no alpendre, conjugando-a com as nuvens poeirentas dos cascos do burro.

Ouvi a minha própria gargalhada, claro está, que não sou homem de levar a vida a sério, tendo a certeza que o Juanito também já a ouvira e se benzera com as três cruzes costumeiras, resmoneando “Por Diós!”, como se eu fora sacrílego só pelo facto de desconhecer as notícias que ou ele, ou o próprio burro, me trazia.

Apagava eu o tabaco sob o tacão da bota e já me ouvia a bem-vindar o moço, ainda que, para manter distâncias e respeitos, nem me passasse pela cabeça oferecer-lhe uma limonada – a xícara de água estava ao lado e isso lhe bastaria. Com os salamaleques trémulos de quem os desconhece e ao seu preceito, abriu a mochila (por acaso roubada há uns anos a um americano de má sorte) e dela tirou um enchumaço forrado a papel pardo e com aquele lacre que sempre me cheira a enxofre aziago.

O rapaz ficou-se por ali, querendo parecer ensimesmado, de sobrancelha curiosa pelas notícias que, não sendo dele, o tinham tornado mensageiro. Meti a mão ao bolso e despedi-o com uma gorjeta gorda que lhe comprasse senão o silêncio todo, pelo menos o momentâneo. E vi-o seguir com o seu burro, devagar, caminho abaixo, entre “patacones” de poeira e som de cascos.

Espreitei pela janela do alpendre. A Soledad ainda dormia a sesta. Abri com delicadezas adamadas a encomenda parda. As lágrimas correram-me pelo rosto.

Era Melquíades que me dizia Adeus.

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