Uma noite no Hot Club

Uma noite no Hot Club

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LUÍSA VENTURINI
É verdade que fazia frio cá fora e que uma chuvinha itinerante nos massacrava lentamente a paciência, enquanto nos acotovelávamos boamente sob beirais, varandins e guarda-chuvas alheios, aguardando que as portas se abrissem.

Revíamos rostos amigos e até reencontrávamos inesperada e surpreendentemente pessoas que, por muitas que sejam as calendas passadas, nunca deixam de ser nossas, de tal modo os nossos belos conluios prosseguem vivos nos nossos espíritos (ao olhar agora para trás, que gostoso ver os trilhos que então foram construídos…).

Entrando-se, por fim, a sala ia ficando cada vez mais quente, tornando-se numa espécie de casulo, de favo repleto do mel luminoso do que ali a todos reunia.

É verdade que não te vi ali connosco. Mas também é verdade que te senti ali connosco e que por mais de uma vez ouvi o teu saxofone nitidamente a sobressair de quantas vozes os teus talentosos amigos delicada, ternamente, nos faziam chegar.

Os teus instrumentos voltaram a soar melodias tuas e juro que senti o teu olhar pousado orgulhosamente sobre cada um de nós que ali estava contigo.

O clube quente e cheio como um ovo inspirava e expirava ao ritmo da recordação, da saudade, do amor, do respeito e de mil cumplicidades, tornado num único ser muito presente e muito vivo. Claro que só podia ser assim.

Era o Hot Club de Portugal. Era o Concerto para o Jorge Reis – o teu concerto – e era o dia do teu aniversário.

Até jazz, meu amigo.

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