Zuleika Bloom

Zuleika Bloom

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LUÍSA VENTURINI
Trajava de roxo a maior parte das vezes, talvez por lhe ter ficado retido na memória um momento da infância em que se apaixonou por aquela mistura desabrida de safiras e rubis.

Fariam falta alguns anos para se entrançar com os mistérios das cores dedilhados pela Blavatsky e muitos mais para que um outro mistério lhe aguçasse a mente – não, não tinha a ver com procissões, ainda que o símbolo estivesse tão próximo, conjecturava ela, que poderia ser uma emanação do mesmo arquétipo.

Mas, a verdade era que trajava quase sempre de roxo. Dizer simplesmente que “se vestia de roxo” não faria jus à seriedade cerimoniosa com que se aplicava no ritual, perscrutando no roupeiro, nas gavetas e no arsenal de porta-jóias e caixinhas o pormenor certo, que criaria com todos os outros a harmonia coincidente com os acordes da sua alma, naquele dia específico.

Depois, como um remate indispensável, abria a vitrina dos aromas, detinha-se por uns momentos, fechando os olhos, para identificar rigorosamente o perfume apropriado.

Vogaria entre umas três fragrâncias (ou quatro, melhor dito). De quando em quando, a tentação arrastava-a para uma mais jovial e cítrica, porque acreditava que melhor lhe alimentaria a energia em manhãs de invulgar boa disposição.

Mais recorrentemente, o gesto encaminhava-a para uma pequena ânfora de vidro que lhe abria a porta para jardins suspensos, porém sem o travo açucarado dos pomares.

Noutros dias, quando os roxos eleitos lembravam céus de noites de verão e a sua alma resplandecia de convicção, não resistia àqueles odores secos dos bosques de cedros e com salpicos bons de mel e ameixa que lhes retiravam peso ainda que não magia.

O outro, o tal quarto perfume, nem tinha marca fixa, pois todas elas tinham um assim, e só o usava quando de si própria e dos seus roxos nada teria a dizer, numa ou noutra circunstância mais social e anónima.

Portanto, sim: era todo um ritual. Havia outras cores que também só usava em dias de festa pessoal e íntima – os tons de rubi e de esmeralda, raramente os de turquesa e de salmão.

Mas isso tinha a ver com viagens que guardava para si, como as estrelas que as crianças escolhem como suas em noites felizes.

O preto, sim, usava muito o preto, ainda que geralmente acompanhado pelo branco, nos dias em que descria do seu nome, ou por outras cores, quando assaltada por certas dúvidas, o que era frequente.

Em toda a vida, ousara uma dúzia de vezes o preto integral – ou porque a situação o exigia ou porque se tinha extrapolado tanto, mas tanto, que acreditava que podia merecê-lo.

Outras cores até poderiam acontecer, embora geralmente por engano ou por generosidade – “solidariedade”, gostava ela de dizer, e, nessas ocasiões, só mesmo o perfume levava o seu nome ou, então, se desesperada do mundo, limitava-se a pôr nos pulsos uma gota de óleo de rosas.

Cruzei-me com ela no outro dia e ficámos horas a conversar. Ambas temos um fascínio por Farid al-Din Attar, o Sufi perfumista de Nishapur, e juntas mergulhámos como pudemos n’A Conferência dos Pássaros.

Sim, estou a falar da Zuleika Bloom, uma egípcia nascida na Europa que estuda Sufismo e traja de roxo. Se por algum acaso alguém se cruzar com ela, não tenho dúvidas de que a reconhecerá, se não pela cor, certamente pelo perfume.

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