A segunda circular

A segunda circular

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Manuel Silveira da Cunha

As obras anunciadas agora para a segunda circular demonstram o estado de total loucura que os serviços de imobilidade da Câmara de Lisboa atingiram. De tal forma que até o anterior vereador da imobilidade, Fernando Nunes da Silva, se insurgiu contra as ideias peregrinas do Arq. Salgado, primo do outro, que quer gastar 10 milhões de euros em operações cosméticas destinadas a transformar a vida do lisboeta, e do português que tem de vir à capital, num verdadeiro inferno, aposta que está a ganhar por larga maioria, visto que só o turista, seja de pé descalço ou ricaço, é bem-vindo em Lisboa.

O antigo responsável pela inacreditável circulação na Av. da Liberdade, da Rotunda, dos Olivais e pelo assassinato da circulação automóvel na Baixa, o Tamerlão do Trânsito, o inimigo número um da mobilidade e do cidadão com automóvel, o ideólogo da exclusão dos pobres do tráfego lisboeta, aqueles que não têm dinheiro para comprar carros de alta cilindrada modernos e, supostamente, pouco poluentes como os célebres Volkswagen aldrabados, mas muito recentes e caros, que podem andar pela Baixa livremente porque são posteriores a 2000, o professor catedrático do Instituto Superior Técnico, Fernando Nunes da Silva, abandonou o seu silêncio comprometido com a política de imobilidade rodoviária da cidade de Lisboa e mostrou que ainda tem algum resto de senso.

Sabe-se que todos os fundamentalismos são perigosos. Depois do proselitismo de Fernando Nunes da Silva contra o automóvel e a circulação rodoviária, os seus sucessores, doutrinados por muitos anos de colaboração, quais cristãos-novos, novos Torquemadas sucessores de Nunes da Silva, o grande pioneiro, incorporaram a ideias deste e querem mostrar-se mais “nunistas” do que o próprio Nunes da Silva, aproveitando, de caminho, para despender cerca de dez milhões de euros para contrariar a circulação na espinha dorsal lisboeta. Se querem plantar árvores nada os impede, mas reduzir a largura das faixas, eliminar circulações, reduzir a velocidade e tentar empurrar os automóveis para a CRIL é um perfeito disparate.

O que se passa é que com menor velocidade de circulação haverá menos capacidade diária na mesma via. Qualquer conhecedor mínimo destas coisas sabe que menor velocidade provoca uma taxa de engarrafamento mais rápido, e que a dissipação dos incidentes será mais lenta após resolução dos mesmos. Como estamos em presença de um fenómeno dinâmico não linear e caótico, a redução de velocidade terá efeitos imprevisíveis, com acumulações muito mais rápidas e uma redução violenta da velocidade média de circulação. Quem afirma o contrário não percebe nada de matemática e de fluxos. O que poderia aumentar o fluxo seria a criação de melhores acessos, com mais longas vias de desaceleração e de saída não congestionada.

O que vai acontecer é uma maior poluição, com emissões muito aumentadas devido ao engarrafamento permanente que se vai gerar. Um gravíssimo problema económico afectará todo o tecido empresarial lisboeta e circunvizinho, com severas limitações à circulação de pessoas e bens e sua distribuição. A qualidade de vida das pessoas será severamente limitada, com muito maiores tempos de circulação, as crianças terão de acordar mais cedo para irem à escola, os pais chegarão muito mais tarde a casa e as famílias serão severamente sacrificadas.

Alguém mediu os efeitos que a descarga de trânsito na CRIL fará? Não será transferir o problema da segunda circular, transformando-a numa avenida urbana para uma via já muito congestionada como a CRIL? Alguém fez estudos? Ou será que mandam uns palpites como dados adquiridos? Passar cinco mil carros por faixa para a CRIL não vai criar um novo problema para além do da segunda circular?

A nossa previsão é que se este projecto for avante, um projecto criminoso contra Lisboa, Portugal e os seus cidadãos, se criarão dois problemas de dimensões ciclópicas, engarrafamentos colossais e contínuos na segunda circular e exactamente os mesmo problemas na CRIL, já de si muito sobrecarregada. Onde hoje existe uma via que ainda escoa, a segunda circular, e uma via que também vai escoando, a CRIL; preparam-se com este projecto inacreditável duas vias completamente entupidas. A favor de quem? Simples, a favor de quem receber os dez milhões em negociatas desnecessárias e contra todos os outros.

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