Manuel-Silveira-da-Cunha-av-115x150Manuel Silveira da Cunha

Alternativa, s. f., que alterna entre dois pólos, que oscila, sucessão de suas cousas, cada qual por sua vez, opção entre duas cousas. Alternar, v., revezar; dispor alternadamente, colocar em posições recíprocas, trocar. Alternação, s. f., o acto de alternar.

A alternativa põe-se, portanto, entre duas opções; “a alternativa que se coloca, hoje em dia na sociedade portuguesa é entre Costa e Passos Coelho”. Assim nos fazem crer os pretensos fazedores de opinião, jornalistas e televisões. Assim foi na semana passada com o debate entre os dois licenciados, Costa e Coelho.

A chusma de pré e pós comentários, a elaboração de um “clima” de inevitabilidade, revela o mais de profundamente podre na sociedade portuguesa, e não falo apenas na classe política, a incapacidade de raciocinar, de entender que a pretensa alternativa não é alternativa nenhuma, porque uma verdadeira alternativa faz-se entre duas cousas distintas e não entre a mesma cousa. Que cousa é esta, que os licenciados Costa e Coelho representam?

Nada mais simples, representam quarenta anos de marasmo, corrupção, estagnação, crescimento, quando existiu, a um ritmo inferior ao dos países civilizados da Europa, representam quarenta anos de novo-riquismo, de deslumbramento com a riqueza de uma recém-nascida burguesia novel urbana cujos pais eram analfabetos, uma recém burguesia saída das juventudes partidárias e dos compadrios de quarenta anos de um regime podre e anti-português, um regime de continuada traição à Pátria que destruiu a soberania nacional e que permitiu durante quarenta anos situações como a da simbólica Mina de S. Domingos, em que uma falida e falsa sociedade mineira, a “La Sabina”, uma sociedade detida por um senhor alemão que mora em S. João do Estoril, sem capitais que não os 20.000 hectares expropriados para “interesse público” há mais de 150 anos, continue a mandar numa faixa de território português como se fosse o Faroeste, uma faixa delapidada, destruída e infectada por uma poluição e um desastre ecológico sem par, em que lagoas ácidas e 18 milhões de toneladas de escombros de metais pesados e sulfurosos contaminam, inclusivamente, a água que Huelva bebe.

Trata-se de uma falsa companhia mineira, que já não detém quaisquer direitos de mineração (desde 1984), que nunca cumpriu o que prometeu, nomeadamente reabilitar o território sob a sua alçada, ou ceder a preços meramente simbólicos as habitações aos antigos mineiros e seus descendentes e que deveria ter sido despojada de todos os seus bens há, precisamente, quarenta anos, bens em que nem o PREC, nem os governos constitucionais conseguiram tocar, apesar de todas as promessas falhadas e todos os direitos terem expirado há muitas décadas, apesar de o fim para o qual os bens foram expropriados a preço irrisório não ter nada a ver com os objectivos actuais da referida companhia que servem apenas para sustentar o accionista com as verbas de vendas que se vão fazendo aqui e ali, e de projectos hoteleiros falhados, em que se esbanjaram milhões de fundos comunitários, como o Hotel que funciona na antiga sede da companhia no Baixo Alentejo.

É a falsa alternativa entre os licenciados Costa e Coelho que é representada pelo escândalo ambiental e pela vergonha nacional de S. Domingos. Há 40 anos de “democracia” que os vendilhões das televisões nos querem impingir os mesmos dois licenciados, cada um chefe de facção da mesma escória devorista. Mais do mesmo, mais crime, mais corrupção, mais força com os fracos e mais indignidade perante os fortes. A verdadeira alternativa está para além destes senhores iguais, está numa total ruptura de paradigma.

Anuncio aqui que votarei em quem prometa que vai reverter os bens da Mina de S. Domingos para o Estado, promessa fácil de cumprir, mesmo para aqueles que agora fingem que nada prometem, entregue as casas aos descendentes dos mineiros, reabilite os terrenos e os entregue às famílias dos expropriados do liberalismo selvagem de há cento e cinquenta anos e da rebaldaria dos últimos quarenta anos e obrigue companhias como a “La Sabina”, ou os seus dirigentes, a pagar a reabilitação do território que sugaram até ao pó deserto e maligno e às águas sulfúricas que infectam as paragens da Ribeira do Chança.