Manuel-Silveira-da-Cunha-av-115x150Passou-se mais um dia dez de Junho, dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Presidiu Cavaco, presidente sem teleologia, espécie de Esteves sem metafísica, homem deseducado, incapaz de comer bolo-rei em público, presidente do povinho.

Exemplar figura do falhanço mas também da glória da democracia portuguesa, uma vez que esta elege um dos mais lídimos representantes do povo mesquinho e inculto e de raízes analfabetas, um verdadeiro paradigma do português, um membro de uma, pretensa, elite intelectual mas que, exemplar jogo de espelhos, é reconhecido como um dos seus, um verdadeiro representante de um povo inculto, endemicamente atrasado, chico-esperto, egoísta e velhaco que, afinal, constitui a maioria dos votantes.

Ao invés de um ser capaz de liderar pelo exemplo e pela capacidade, Cavaco, doutorado por uma Universidade inglesa, certamente competentíssimo na sua área, consegue o poder pela identificação. O povo português nunca elegeria um Infante D. Henrique ou um D. João II, o povo português é invejoso e odeia a inteligência mas aprecia a espertice. Vejo com enorme dificuldade um Marcelo eleito como presidente que, apesar de ser oriundo de uma putativa elite, apesar de se tentar fazer passar por mais popular do que é, nunca conseguirá esse efeito magnético da identificação que torna Isaltino Morais um ídolo do povo.

Cavaco torna-se assim uma espécie de presidente sem poder, esvaziado na sua teia de compromissos, uma espécie de Wotan à espera do Crepúsculo, não que tenha um milésimo da clarividência do deus nórdico ou sequer um Loge que o acompanhe. É, pois, natural, apesar de confrangedor, perceber que a lista está cheia de nulidades e qual a lógica da atribuição das condecorações de Aníbal das medalhas, um bom cognome monárquico.

Não existe guião nem explicação, de forma que começamos com o costureiro da primeira-dama, o comendador que tem o mérito de conseguir que as suas criações tornem as senhoras parecidas com couves; segue-se o Teixeira dos Santos, ministro das finanças: levou uma grã-cruz, provavelmente porque levou o país à ruína e permitiu a subida de Passos Coelho e cujo único racional na honraria será o de afrontar o preso 44 que não leva nenhuma medalha, mas se levasse também não era nada que o embaixador Jorge Ritto já não tivesse levado; Mariano Gago levou uma honraria, a mesma grã-cruz do anterior, porque morreu e fica sempre bem dar uma medalha a quem não a pode recusar ou mandar umas bocas, porque respeitinho pelas ideias de Gago para o país não há nenhum; segue-se a senhora ex-directora do Palácio da Ajuda, a novel comendadora Isabel Silveira Godinho que perdeu as jóias da Coroa num empréstimo que fez à Holanda, um paradigma da competência, deve ser porque o presidente Cavaco é republicano e premiou a referida senhora por ter apagado de vez um dos últimos vestígios da monarquia.

Finalmente, o físico Vítor Cardoso e Pedro Mexia têm o título de “oficial”, um dos últimos na lista de precedências, mostrando bem as prioridades de Cavaco sem teleologia que prefere um costureiro a um investigador brilhante e à intelectualidade batráquia de Pedro Mexia. É evidente que teria ficado bem a qualquer um destes premiados ter recusado estas honrarias republicanas concedidas por Aníbal das medalhas que, antes de premiar a ciência ou as artes, premeia o ressentimento, o servilismo e a nulidade, e, já que não serve para mais nada, distribui condecorações como se não houvesse amanhã.

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