Manuel Silveira da Cunha

No início era a vinha. Começamos por citar da ‘Revista dos Vinhos’, de há já mais de um ano, era Costa presidente da Câmara de Lisboa, um texto de António Falcão:

“A região de Lisboa vai mesmo ter uma vinha localizada… dentro da própria cidade. A vinha ainda não tem nome mas vai ficar instalada na freguesia de Marvila, junto à chamada Rotunda do Aeroporto […] dois hectares e picos. […]

A iniciativa desta vinha partiu da Câmara Municipal de Lisboa, que está a promover a criação de espaços verdes na capital, e os chamados “corredores verdes”, que permitirão, quando terminados, que as pessoas possam fazer grandes trajectos sem sair de caminhos ‘verdes’. Foi a Câmara de Lisboa que cedeu os terrenos à Casa Santos Lima (CSL), um grande produtor de vinhos desta região. Em contrapartida, a CSL terá a seu cargo a preparação do terreno, o plantio das vinhas e a sua exploração, bem como a construção de uma casa de apoio e de uma cerca.”

As incoerências

Se olharmos para a notícia, percebe-se logo a primeira e rotunda incoerência: se a vinha fica num corredor verde onde as pessoas podem passear, porquê uma cerca?

Outra incoerência óbvia é o facto de uma vinha actual ser uma instalação de características industriais, mais do que rurais; é um negócio, e a Casa Santos Lima não é um paradigma da produção biológica, que aliás não desdenha o uso de químicos como enxofre e sulfato de cobre que, pasme-se, são considerados produtos naturais e, logo, biológicos!

Nunca será uma colina onde, a meio de tratamentos, pulverizações, tractores em movimento, seja possível passear de forma agradável, isto se os lisboetas conseguiram pular a tal cerca. Por outro lado, em tempo de uvas maduras, será de augurar que os passeios pelo tal corredor verde conduzirão a notáveis perdas de produção, destinadas as uvas aos passarões locais de Chelas e arredores e suas famintas barrigas.

Rótulo do vinho: Encostas do Monóxido?

Nas encostas da tapada de Agronomia, pertencente à Universidade de Lisboa, ainda estamos longe da poluição, refrescadas pelo rio, protegido o parque pelo envolvente de Monsanto, e longe dos grandes corredores poluentes, produzindo um vinho de excelente qualidade que qualquer português poderá comprar no próprio Instituto de Agronomia; e se, então, comprar a aguardente produzida a partir das mesmas matérias-primas, ficará encantado.

No entanto, o que acontece com a novel vinha plantada no coração da poluição lisboeta? É uma zona bucólica onde o lisboeta poderá contemplar o pôr-do-sol em paz e sossego enquanto bebe o seu copo de tinto olhando a rural encosta com uma vista pacífica e o silêncio campestre? Não parece. Vejamos: está junto do aeroporto, da rotunda do Relógio e juntinho da segunda circular que, afirma a própria Câmara de Lisboa e sua vereação, é um foco de poluição acima dos limiares europeus, o ruído é ensurdecedor. O sonho de qualquer lisboeta será mesmo a contemplação de engarrafamentos enquanto é borrifado por produtos químicos saídos de um tractor?

O vinho que virá aí, pelo menos, poupará na adição de sulfitos. Com a quantidade de dióxido de enxofre, carvão, metais pesados, resíduos de hidrocarbonetos que abundam no local, poderemos ler no rótulo algo como “castas: querosene saudita, gasolina angolana, com subtis aromas a gasóleo queimado e profundas sugestões de carvão, um leve bouquet a dióxido de enxofre e fortes sensações a gasolina e querosene de avião. Encostas do Monóxido é um vinho saudável e apaladado, bom para pessoas robustas que adorem sensações fortes, aventura e tenham total desprezo pela vida, pronto para ser bebido com tainhas pescadas nas lamas sedosas do Terreiro do Paço e cozinhadas em águas puras da ribeira do Trancão.”

Como virá aí uma consulta pública sobre o nome do vinho, ficam as sugestões: “Encostas do Carvão”, “Quinta do Smog”, “Vinha do Querosene”, “Tinto do Carvão”, “Adega do Tubo de Escape”, “Vinha do Reactor”, “Colheitas do Petróleo”, “Reserva do Costa”, “Tractor Manco” ou o singelo “António Casta”. Em caso de exportação, terão os inócuos nomes de “Crap Vine”, “Monhein Vintage” (para o mercado alemão) ou o mais directo “Vintage Polution”. O meu preferido é o doce e sugestivo “Encostas do Monóxido”.

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