Manuel Silveira da Cunha

“Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cuzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calunias. Agora volta a bolçar, no “Publico”. É estória de “tempo velho” na cultura. Uma amiga escreveu: “vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros. Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também.”

Como o leitor bem entende, estas palavras são textualmente de João Soares, incluindo o “cuzei”, espécie de erro ortográfico que Freud talvez conseguisse explicar melhor do que eu. Palavras publicadas no Facebook e que lhe valeram a bem merecida e abençoada demissão, depois de umas desculpas arrogantes e esfarrapadas em que ainda, qual menino violento na escola, pede “desculpa se os assustei”.

Resolvi publicar o texto na íntegra para se entender a baixeza do escrito. Começa o insulto pelo tradicional (em João Soares) “bolçar” como se os textos de Pulido Valente e de Augusto Manuel Seabra fossem vomitados azedos de criança ou insultos gratuitos, quando, de facto, são belíssimos textos críticos de opinião fundamentada. Segue depois o Sr. Soares ao ataque citando uma desconhecida “amiga” para, sem coragem, afirmar pela boca de outrem que o Augusto Manuel Seabra era um azedo, um alcoólico e o seu cérebro estava degradado, uma espécie de vampiro sem cérebro, o que aliás é contraditório – quem não tem cérebro, ou está em muito mau estado, é o monstro de Frankenstein, o que num ministro da cultura é outro erro grosseiro a par do “cuzei”.

O que é particularmente infeliz é a referência ao alcoolismo de Seabra. Conheço bem Augusto Manuel Seabra e sei que muita gente dizia que bebia uns copos valentes, e isso nunca toldou a sua escrita. O ponto é que supostamente bebia, verbo no passado, pois Augusto Seabra vai para décadas que não bebe. Invocar essa condição antiga ou uma doença, putativa ou real, é ainda mais infeliz num combate que se quer no campo das ideias e passa declaradamente ao campo pessoal. Augusto Seabra teve, também, uma doença rara no cérebro, que o colocou em enorme risco de vida, passando muito tempo no hospital e que, felizmente, conseguiu superar, facto que toda a gente culta de Lisboa sabe e que João Soares não poderia deixar de saber.

Estas referências directas à vida pessoal de Augusto Seabra são do mais baixo nível que tenho encontrado no discurso no espaço público, são de uma grosseria e deselegância tão grande que ninguém na imprensa pegou nesse lado da questão, provavelmente por pudor, e toda a gente se centrou na questão menor das bofetadas, bofetadas efectivamente prometidas e ainda não dadas por falta de oportunidade, não bofetadas metafóricas, como bem se entende do texto integral, violento, visceral, figadal de Soares.

O que foi dito na imprensa, as diversas opiniões e mesmo o que Costa afirmou, foi sempre dito no campo da bofetada, mas o que motivou, inconscientemente, o asco pelo que João Soares fez, foi o levantamento da questão pessoal, a invocação de uma doença ou de uma condição pessoal do antagonista para o atacar de forma torpe. Como Augusto Seabra disse: “o que João Soares escreveu só o qualifica a ele”. A falta de vergonha não tem, no entanto, limites. João Soares sai porque “quer manter a liberdade de expressão”.

Bem hajas, Augusto Manuel Seabra, corajoso, incómodo e, às vezes, mau como as cobras, espero que dures muitos anos. Podes juntar ao larguíssimo currículo o acto menor, mas largamente higiénico, da demissão de João Soares de ministro dos almoços e jantaradas.

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