Manuel Silveira da Cunha

O sistema político português parece agradar de sobremaneira aos actores políticos, os partidos e seus dirigentes. Acontece que é um sistema que os beneficia no seu amadorismo, na sua ineficiência, impreparação e má qualidade, nuns casos, e na sua ânsia de enriquecimento pessoal à custa dos muitos e variados tipos de corrupção, não apenas a corrupção criminal mas também a corrupção como forma de dissolução da sociedade e de amolecimento da ética e da moral.

O dirigente que tira comissões e luvas para decidir a favor de um interesse ainda pode vir a ser, remotamente, condenado, já o político que decide a favor de um banco, grupo hospitalar, financeiro ou empresa, socializando muitos milhões de euros de todos os cidadãos para os entregar a grupos de amigos que, mais tarde, o empregarão para não fazer nada e a ganhar uns milhões anuais, não é considerado corrupção. O exemplo de Ferreira do Amaral, que decidiu a favor da Luso-Ponte e depois se tornou seu presidente, é considerado por muitos como exemplar e a sua ética e moral não é posta em causa. É um exemplo a seguir de político incorruptível, o que poderá parecer surrealista a muitos.

No fundo, a diferença entre uns e outros é apenas a do jogador em acções na bolsa e o jogador em futuros ou derivados, mas sempre sem risco: ou recebe à cabeça arriscando “a casa prisão” ou aposta no futuro e terá a sua vidinha assegurada.

O que se passa agora com os resultados eleitorais é paradigmático. Um governo que se arrasta há muito mais de quatro anos, prazos dilatadíssimos para soluções pantanosas, resultados finais que não saem, indícios de fraude por todo o lado, votos de mortos, votos que já estavam descarregados, correios privatizados incompetentes, votos que não chegam a emigrantes ou chegam tarde e com endereços errados, é tudo uma pouca-vergonha. Depois de quinze dias o Sr. Cavaco Silva resolve ir de fim-de-semana. Os resultados oficiais das eleições saíram na Quinta-feira e sua Excelência apenas começa a receber os partidos na Segunda-feira, e por dois dias, quando poderia receber perfeitamente os partidos apenas num só dia. Falamos de PSD, CDS, PS, BE, PCP, PEV e PAN. São sete partidos, uma hora cada, será que o senhor presidente da república não consegue ter sete horas de trabalho no mesmo dia? Será que o país se pode dar ao luxo de ter o presidente a empatar mais quatro dias e a demorar eternidades para fazer a sua função constitucional?

A cultura de exigência, de trabalho, de profissionalismo não existe na política. É evidente que o governo deveria ter entregado em Bruxelas um esboço de orçamento, o governo está em funções e deve respeitar os compromissos, não comportar-se como um estudante borguista com desculpas de mau pagador para não entregar um trabalho que era seu dever ter feito. O caso das reuniões com o PS é outro exemplo. Fazer birra, não dar respostas, quando pedidas, não querer trabalhar, quando está em jogo o futuro do país, é vergonhoso e não abona nada em favor dos senhores que nos governaram estes anos. No fundo, maus estudantes e pessoas que nunca trabalharam. Não trabalhar na hora difícil é dar uma desculpa para o PS continuar com negociações com as outras esquerdas. É uma traição a quem votou na coligação e, pior, uma traição ao país, por amadorismo e falta de vontade de trabalhar. O mesmo Passos Coelho que chamava lamechas aos portugueses, rapaz esperto e de boa voz, tem de aprender com os grandes, que ele nem sequer conhece, esses Churchill, Metternich ou Bismarck, que eram mouros de trabalho, as reuniões prolongavam-se durante dias, a sua indomável vontade de servir o país levava-os a destruírem pelo cansaço e sono as pretensões dos outros negociadores.

Num momento ingente de grandes dificuldades exige-se que os dirigentes tenham uma cultura de empenho, de dedicação e trabalho. Duas reuniões em quinze dias? Deus valha a estes políticos. Costa já se conhece, manhoso, esperto, esguio. A Passos Coelhos exigia-se que, pelo menos, fingisse que estava empenhado nas negociações e as fizesse de forma séria, em maratonas se possível, para que o PS não tivesse sequer o ensejo de o usar como desculpa de se atirar para as esquerdas para ter o acesso ao pote das moedas e para Costa se poder manter agarrado ao sonho de vir a ser ex-primeiro-ministro. Triste país, sem governo nem tino.

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