Manuel-Silveira-da-Cunha-av

Portugal muito deve aos comandos. Foram combatentes muito empenhados nas recentes guerras de África, resistiram aos avanços comunistas e excessos do pós-vinte e cinco de Abril apesar de terem participado na revolução, posteriormente participaram em missões de paz em que nunca desonraram o país.

Os comandos, se empregues de forma justa e equilibrada, cirurgicamente, de acordo com as suas capacidades e meios, podem ser de grande importância. Napoleão não mandou a velha guarda avançar em Waterloo, era tarde demais, seriam apenas cordeiros destinados à chacina e nada poderiam fazer, no ocaso da derrota, com a chegada de Blücher, para inverter o rumo dos acontecimentos. Os comandos não servem para missões pesadas de choque, não devem participar em acções de grande envergadura, são forças de reserva para empregar em situações delicadas onde, em muitos casos, é necessário tacto e cuidado extremo, para além de espírito de sacrifício e capacidade física e militar.

É nestas circunstâncias que temos de optar entre a loucura do brigadeiro Orde Wingate, por mais român- tica e por maior bravura que demonstre, e a ousada prudência do tenente Stirling. Wingate teve de criar as suas brigadas em condições de elevada dificuldade, o Império da Índia estava em risco se não se cortas- sem a linhas de abastecimento e se atasse o exército  japonês atrás das suas posições avançadas com golpes ousados. O número de baixas, elevadíssimo, era baixo comparado com o preço de perder a Índia. As acções dos Chindits e de Wingate foram muito exploradas pela propaganda aliada, mas as suas campanhas na Birmânia tiveram, no final, pouco sucesso militar relativamente ao elevadíssimo número de baixas dos seus comandos. Estava-se em guerra e as baixas em treino, elevadíssimas sobretudo durante a monção, e em combate, ainda mais elevadas, justificavam-se pela necessidade de sucessos e de levantar o moral das populações na retaguarda.

Já os SAS de Stirling, “special air service”, sempre se comportaram de forma mais responsável na sua ousadia muitas vezes levada ao limite. No entanto, não estiveram imunes a mortes em treino. Recente- mente, em 2013, morreram três soldados no treino de acesso ao SAS devido a calor e desidratação, já este ano faleceu mais um cabo. O escândalo em Inglaterra foi grande e foram tomadas medidas para prevenir futuros acidentes deste tipo.

O que espanta é que os comandos não tenham aprendido com as lições de velhos tempos, dentro da própria unidade, nem com as lições de outras forças especiais noutros países. Um oficial superior, um coronel comandante de unidade, deveria estudar, manter-se a par da doutrina de treino, das especificidades do mesmo e das condicionantes para a saúde das condições extremas, nomeadamente de calor. Um batalhão de comandos é uma unidade militar, paga pelo dinheiro dos seus concidadãos; não é uma tribo a praticar praxes que põem em risco a vida dos soldados confiados ao comando dos oficiais e sargentos instrutores. Uma das funções primordiais dos oficiais será manter a segurança dos seus subordinados e, neste caso, dos instruendos.

Por outro lado, o pessoal médico deverá estar atento, documentado, preparado para ocorrências como as que surgiram no último curso com a morte de dois instruendos e nove baixas no hospital. Um número que nunca poderá ser acidental: acidental seria uma morte, seriam dois ou três instruendos no hospital. Quando há nove baixas graves e dois mortos, algo de muito errado aconteceu e a culpa é de toda a estrutura de comando e de quem desenhou a doutrina de treino sem mecanismos de prevenção do alto risco, nomeadamente no que concerne à segurança dos instruendos em situações extremas de calor e desidratação, que são extremamente fáceis de prever, basta olhar para o termómetro e higrómetro. Finalmente, deixar instruendos numa tenda sem as condições de um hospital, por longas horas, até morrerem, aparenta ser crime e as autoridades judiciais assim o parecem entender. Não entendemos, neste aspecto, o silêncio dos enfermeiros em inquérito judicial: aparenta ser um pacto de silêncio muito grave, que não honra os comandos nem a sua proverbial coragem.

Ao invés de extinguir os comandos, que são cada vez mais necessários, segundo a doutrina cirúrgica das nossas operações militares futuras, é importante dotar esta força de uma doutrina de segurança, para além de preparação física e militar, por uma doutrina de respeito pelo capital humano. Não é necessária a praxe humilhante, basta que a dureza dos cursos faça a sua avaliação decorrer normalmente e que os melhores cumpram as missões que lhes estão confiadas, depois de receberem as boinas e crachás. Que se tirem lições e os culpados sejam punidos exemplarmente, dos sargentos instrutores ao topo da hierarquia que se mostrou ausente e que confiou em oficiais subalternos e sargentos que acabam, infelizmente, por manchar a história dos comandos portugueses e os põem em risco de extinção, mais uma vez, sem a menor necessidade.

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