Da estupidez

Da estupidez

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

O “Bairro das Colónias”, em Lisboa, parece que se chama agora de “Bairro das Novas Nações”. Entretanto, o vereador José Sá Fernandes, de quem os lisboetas sofreram as diatribes contra o túnel do Marquês ao longo de anos e a quem o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, parece dever muitos favores, afirma olimpicamente que não vai recuperar os brasões, peças de arte, feitos em flores, que desde há setenta anos ornamentam a praça do Império, porque os referidos brasões florais representavam (e representam) simbolicamente as Províncias Ultramarinas e o senhor vereador acha que são “símbolos colonialistas” e não vai gastar um tostão a recuperar “símbolos ultrapassados”.

Pela mesma ordem de razão o senhor vereador, se tivesse a seu crédito um palácio antigo, não recuperaria esse edifício se nele tivesse havido uma masmorra ou tivessem servido escravos, porque isso teria sido contra “os direitos humanos”, ou outra razão qualquer. Uma razão anacrónica que não contempla valores como a história e a arte.

O problema tem a ver, não com as opiniões do senhor vereador (o mesmo que hipoteca Lisboa ao serviço das grandes superfícies em piqueniques monstruosos nas zonas de maior prestígio comercial, como na avenida da Liberdade, fazendo perder aos comerciantes e à economia nacional milhões de euros ao serviço dos nabos e couves em publicidade aos supermercados do eng. Belmiro, ou deixa entregar a marcas de automóveis zonas residenciais, como a praça das Flores, torturando denodadamente os moradores, ou tendo no currículo a transformação do jardim Norte do parque das Nações numa espécie de deserto do Biafra), mas com o conceito de arte e de história. Sá Fernandes, um personagem sem qualificações para avaliar uma peça de arte ou um jardim histórico, na zona de protecção dos Jerónimos não pode apagar com a esponja da nulidade do politicamente correcto obras de arte e a História de Portugal.

Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Macau, a Índia Portuguesa ou mesmo o Brasil foram influenciados por Portugal, que os colonizou. É um facto indubitável. O Convento-Palácio de Mafra foi construído com o ouro do Brasil, ninguém pode apagar esses factos da nossa história. Será manter esse palácio colonialismo? Lisboa celebrou o Mundo Português na década de quarenta e representou em obras de arte essa relação que durará para sempre. As peças de arte, por mais efémeras do que as flores possam ser, são imutáveis e eternas, a mediocridade do senhor vereador não pode nem deve apagar a história nem, sobretudo, a arte.

António Costa parece ter ficado surpreendido e chamará o assunto a discussão em reunião da vereação. No entanto, o facto de ter confiado um sector tão sensível como o dos espaços verdes a Sá Fernandes demonstra incapacidade de Costa para gerir a coisa pública. Quem comissiona em Sá Fernandes não pode gerir nada. O comissário é igual ao comitente.

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