Manuel Silveira da Cunha

As eleições realizaram-se. A farsa da democracia portuguesa continua a afirmar-se cada vez mais longe dos cidadãos. Ficam aqui algumas reflexões.

Em primeiro lugar, a abstenção. Como é possível que num país com oito milhões e meio de pessoas com mais de 18 anos existam nove milhões e meio de leitores?

Segundo lugar: foram denunciadas inúmeras fraudes eleitorais, eleitores tentaram votar e o seu nome já estava descarregado nos cadernos, os votos dos emigrantes são deitados fora sem escrúpulos, uma vergonha que nada dignifica a democracia portuguesa.

A inacreditável demora na contagem dos resultados eleitorais dos emigrantes é clamorosa. Como é possível que, após anos de campanha eleitoral, em que o governo deixou de governar a sério, pensando nas eleições, exista ainda um prazo que termina a 14 de Outubro para a contagem de um número ridículo de votos dos emigrantes? Inconcebível nos tempos modernos que correm. A solução seria fazer uma votação antecipada para ter os votos no dia da contagem geral, este atraso afecta a indigitação de um novo primeiro-ministro. Em Inglaterra é feita na noite do acto eleitoral; na Grécia, esse país do terceiro mundo de “preguiçosos e aldrabões”, há governo três dias depois das eleições.

Votos brancos e nulos deveriam contar, somam tantos quanto os do partido comunista, e se virmos bem, apenas 20% dos portugueses votaram na coligação que teve mais votos.

Finalmente, será que a coligação ganhou o direito de governar? Infelizmente, em Portugal, não se vota num primeiro-ministro ou num governo. Vota-se num parlamento por círculos eleitorais. Cada deputado vale pelos votos que obteve. Sendo assim um partido, ou coligação, mais votados não têm o direito automático de governar. Governa quem no parlamento tem uma maioria estável, mesmo que não seja absoluta. Assim o afirmava Paulo Portas em 2011 e assim continua a ser. O presidente da república apenas terá de “ter em conta os resultados eleitorais” e não quem teve mais votos. O voto dos portugueses assim o determinou e mesmo a maioria contra-natura de PS, Bloco, PCP, PEV e PAN tem mais legitimidade para governar do que uma minoria, vencedora é certo, PSD com CDS.

Tentar afirmar que uma maioria de esquerda é um golpe de estado constitucional é totalmente falso. No entanto, os partidos da coligação têm todo o direito de capitalizar politicamente o facto de o PS se aliar à esquerda para governar, coisa que se os eleitores soubessem antecipadamente tiraria votos ao PS. Com um presidente como Marcelo Rebelo de Sousa, um governo PS com apoios à esquerda poderia não durar toda a legislatura e a capitalização política da coligação poder-lhe-ia dar uma maioria, finalmente, esmagadora que lhe permitisse governar com poder quase absoluto. O futuro o dirá.

Finalmente a aberração de um partido cujo programa pretende a proibição de tampões e de pensos higiénicos, com o argumento de que são pouco ecológicos, ter elegido um deputado! O que se segue? Direito de voto para cães e gatos?

SIMILAR ARTICLES

1 572
  • Toni_Pereira

    A respeito de direito de voto para cães e gatos,vá-se preparando por que o que hoje é sátira amanhã é realidade,meu caro…