José Sá Fernandes, vereador da “Estrutura Verde”, anunciou mais cento e cinquenta quilómetros de ciclovias em Lisboa (existem actualmente cerca de sessenta). Anunciou ainda João Dias, da EMEL, a empresa dos parquímetros, a compra de 1.410 bicicletas por vinte e três milhões de euros. Estava muito contente porque a proposta inicial da Câmara de Lisboa previa que o sistema fosse instalado por um valor de adjudicação de vinte e oito milhões.

Os números podem parecer naturais à primeira vista, mas dividindo 28 milhões, que a Câmara achava natural à primeira vista, por 1.410 bicicletas, obtemos um valor unitário de vinte mil euros por bicicleta! O valor final, que deixa os responsáveis tão contentes, é de apenas de dezasseis mil e trezentos euros por bicicleta.

Repare o leitor que se a Câmara resolver pagar uma bicicleta a cada alfacinha em idade de andar na via pública, excluindo também os doentes, poderia gastar cerca de cento e vinte euros, o que já compraria uma bicicleta com garantia vitalícia de uma gama superior às que andam aos trambolhões nos sistemas de alugar partilhado. Pior: a Câmara, além de pagar mais de dezasseis mil euros por bicicleta, ainda vai dar os rendimentos do aluguer das mesmas a uma empresa privada.

Imagine o leitor a quem vai a Câmara sacar os dinheiros que vai pagar por este negócio vergonhoso? Ao estacionamento, pois claro. São menos 150 quilómetros de passeios, ruas de circulação e de estacionamento para ficarem desertos.

Será com estas políticas que se vai obrigar os lisboetas e turistas a andarem por montes e vales com o traseiro em cima de uma bicicleta e reduzir-se a poluição e o trânsito? Nem pensar! A cidade tem montes e vales que nunca mais acabam e só atletas bem preparados poderão fazer uma deslocação interior para o trabalho de bicicleta. Por outro lado, Lisboa perde cada vez mais habitantes jovens para a emigração e para as periferias. Quem pode atravessar as pontes de bicicleta? Proibido. Quem virá de Cascais, Sintra, Cacém, Região Oeste, Vila Franca ou da Azambuja de bicicleta? Só um louco que goste do desporto radical de ser atropelado por camiões em bermas estreitas e fossas profundas e de apanhar um cancro o mais rápido possível por respirar escapes no ambiente hostil à bicicleta que rodeia as grandes entradas de Lisboa. De facto, há uns doidos que, de manhã, resolvem fazer a marginal de bicicleta, ocupando alegremente uma faixa, o mais ao meio possível, e causando engarrafamentos monumentais, passando sinais vermelhos nos semáforos, como se o Código da Estrada não fosse para ecologistas.

Estas ciclovias não vão reduzir o trânsito pendular que enche a cidade de Lisboa. Servirão para continuar desertas, como as que existem nas avenidas novas, onde a frequência de ciclistas deve ser de 8 a 10 travessias por dia. Servirão apenas para servir um capricho pretensamente ecologista de pessoas sem a noção da realidade que acham que é bonito haver ciclovias, pagas a custos astronómicos, apenas por haver; e que antes, no caso do vereador Sá Fernandes, conseguiu dar cabo da vida a centenas de milhares de utilizadores da auto-estrada A5 quando andou a empatar a construção do túnel das Amoreiras com providências cautelares. Aliás, uma obra notável que muito ajudou Lisboa.

Tudo que se tem feito no trânsito em Lisboa está errado. Os estacionamentos periféricos são encerrados, como no Campo Grande. Os transportes públicos são cada vez piores. O estacionamento é eliminado, provocando estacionamento em segunda fila, que não é fiscalizado.

Vinte e três milhões de euros serviriam para reparar a rede do metropolitano, com carruagens canibalizadas para peças e uma rede a cair de podre, estações em ruínas, grafitis por todo o lado, sujidade e, pior de tudo, cada vez mais tempo de espera e deslocação em condições infra-humanas devido ao excesso de lotação inerente.

O que se faz em Lisboa é torturar o lisboeta e o visitante que não pode circular de carro nem de transportes públicos que não andam, promover o turista, eliminar o residente português, e construir ciclovias fantasma para alegrar o senhor Sá Fernandes, elimina-se a calçada portuguesa e descaracteriza-se a cidade em projectos miseráveis para uns paisagistas justificarem ordenados e poderes mesquinho pseudo-sapientes. Na duque de Ávila conseguiu-se estar 11 meses a pavimentar noventa e sete metros de rua! E viva a ciclovia mais os dezasseis mil euros por bicicleta, como se fossemos o país mais rico do mundo. Ou então… tire o leitor as suas conclusões.

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