A direita conservadora portuguesa é, potencialmente, a maior força política portuguesa. Os portugueses, na sua esmagadora maioria, são conservadores, ainda são maioritariamente católicos, gostam de ordem e paz, gostam de estabilidade, são honestos, trabalhadores, pagam as dívidas e honram a sua palavra. Têm um gosto especial pela cunha e pelo nepotismo, que não consideram especialmente imoral, e toleram a corrupção endémica da classe política, que é uma emanação do próprio povo. Isto é especialmente manifesto nas autarquias de qualquer espectro partidário, do PCP ao CDS: as autarquias empregam clientes dos partidos e seus familiares. A direita apenas por inépcia dos seus dirigentes não ganha esmagadoramente todas as eleições. Cavaco Silva, aliás muito pouco dotado, demonstrou à saciedade esse facto.

Infelizmente, o português é muito pouco culto, lê pouco, o seu índice de leitura é dos piores da Europa, o que dificulta as suas escolhas políticas. Por outro lado, preza a normalidade e inveja fortemente a diferença quando esta é diferenciadora. Um jovem inteligente na escola é, no Portugal tradicional, invariavelmente alvo da chacota dos espertos jovens “normais”, isto é, dos menos dotados intelectualmente mas vivos e de piada fácil, que tudo fazem para reduzir o jovem mais dotado à sua insignificância e colocá-lo na norma. Isto tem a ver com o tradicional analfabetismo português. A alfabetização tem muito pouco tempo em Portugal: ainda nos anos 1960 era na casa dos 35%, depois de ter sido da ordem dos 90% na primeira república. Salazar fez um esforço notável na educação, escolhendo ministros de grande craveira intelectual, facto que é escondido pela esquerda ainda hoje, mas o analfabetismo demora séculos a sair do povo. Talvez dentro de cinquenta anos possamos dizer que estamos ao nível de uma Dinamarca ou Suécia.

Sabe-se que as escolhas são feitas por identificação. Passos Coelho, um ex-jovem transmontano nascido em Coimbra, por exemplo, soube, com inteligência intuitiva, identificar-se com os portugueses; a imagem é de um homem poupadinho, normal, vindo das berças, morador em Massamá, nos subúrbios, de origens rurais, pouco culto, pouco inteligente mas esperto, honrado, que honra os seus compromissos, uma espécie de burro (animal teimoso, determinado, trabalhador, parco e esperto). Viu-se que não é verdade, aliás na forma como descartou o seu mentor, Ângelo Correia, que apesar de alguma tontice era a melhor cabeça de que Passos dispunha no seu círculo. Ângelo Correia tem dois cursos superiores tirados a tempo em excelentes escolas, o Instituto Superior Técnico e o ISCTE, ambas em Lisboa, ao contrário de Passos Coelho, que acabou a sua licenciatura aos 35 anos numa Universidade sem ranking internacional.

Mas a metáfora do burro passou e ganhou as eleições a uma desgastada fera, a hiena selvagem que nunca dá descanso à sua presa, cujo modelo era o de um ditador de esquerda, uma espécie de autocrata com laivos paranóides na forma como tentou controlar tudo e todos, também com delírios de super-homem intocável, construtor de uma imagem que passou por fazer de si próprio uma espécie de intelectual, provavelmente para tentar fazer refutar a imagem manchada do seu percurso académico, construção que se tornou obsessiva com livros publicados, mestrados e inscrição num doutoramento que afinal, hoje em dia, não lhe valem de nada. Em Portugal, o burro honrado e poupadinho ganhou à hiena, ao “animal feroz”. Repare-se que Salazar foi, de certa maneira, a combinação das duas coisas, controlador e honrado; e mais: era extremamente culto e inteligente, qualidades que não existem nos dirigentes políticos partidários. Salazar foi, antes de tudo, uma águia.

O problema é que Passos Coelho é um homem sem programa. No caso de 2011, o seu programa foi escrito por outros, por um lado pela troika, por outro lado por figuras como Ângelo Correia e Eduardo Catroga, que já desapareceram do seu espectro. Hoje em dia navega à vista por contradição; é altura em que ser modesto, honrado e poupadinho não chega, é “poucochinho” para combater inimigos políticos melhor preparados, apesar de, também, medíocres.

A direita precisa de um programa, de uma teleologia, de um objectivo para Portugal, e essa mensagem não transparece, nem existe, no discurso de Passos Coelhos nem do PSD que, à deriva, faz oposição tacticista. A questão da redução da TSU é uma vergonha para Passos Coelho. O que vai dizer aos empresários, que diz que defende, precisamente os pequenos empresários, quando estes lhe cobrarem o facto de os ter apunhalado pelas costas? Para além da luta política de caserna, há o País. Passos Coelho demonstra que apenas está preocupado com o retorno ao poder a qualquer custo, mas não é assim que lá voltará.

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