Dos caracóis ao Jesus

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Manuel-Silveira-da-Cunha-av-115x150Foi esta semana atormentada por fait divers que demonstram a verdadeira idiotia do povo português.

Em primeiro lugar um grupo de cromos resolveu iniciar uma campanha contra a cozedura do caracol ou caracoleta vivos em lume brando, para que os referidos animais saiam da casca e depois sejam mais fáceis de comer.

Alegam os promotores da campanha que os referidos moluscos sofrem imenso durante a cozedura e que aquilo é uma tortura digna de bárbaros.

Nós alegamos que a ingestão de caracóis é digna de bárbaros, independentemente do processo de cozedura. Um prazer dos típicos bárbaros portugueses que poucos prazeres têm. Mas também alegamos que as águas de Portugal estão em vias de ser privatizadas à pressa, bem como as pousadas da juventude e a TAP e andam a perder tempo com o sofrimento dos caracóis. E o sofrimento das couves a serem cozidas, isso não importa aos senhores vegetarianos radicais? Aos puritanos do politicamente correcto? Aos comedores de nabo e grelos?

E já agora, porque não exterminar todos os animais que, na natureza, se alimentam de animais vivos sem compaixão pela miséria alheia? Maldito tubarão que come a faneca sem lhe perguntar se esta se sente confortável enquanto é mastigada. Maldito leão que morde na gazela sem ter consideração pelos herdeiros desvalidos da mesma e sem respeito pelo sangue e dor que provoca. Maldito autor destas linhas que coze, sem anestesiar primeiro, umas santolas em águas ferventes, um crime do piorio, e depois se regala com o fruto da sua barbárie sem remorsos nem problemas de consciência… Mas não vale a pena falar demasiado deste assunto, que é dar-lhe uma importância que não tem, para além de deplorar a estupidez de meia dúzia de ociosos endinheirados que perde tempo com os caracóis dos outros.

Por outro lado, a comoção nacional é dedicada ao caso Jesus, não que tenha caracóis apesar de uma capilaridade exuberante, policromática, variegada e de cambiantes extremamente voláteis no tempo, um senhor que não se sabe exprimir em português, um senhor que parece ser treinador de futebol. Acabou o contrato com o Benfica e foi contratado pelo Sporting que, pelo meio, despediu o actual treinador, o excelso e juvenil Marco Silva, com justa causa (?) porque, entre outras coisas, não vestiu o fato num dia de jogo contra o clube da mui nobre e leal Vizela.

Esquece-se o povo português que, enquanto se preocupa com este Jesus prolixo e de falar plebeu, os transportes públicos de Lisboa estão a ser vendidos a interesses obscuros e os senhores do BPP foram absolvidos… O mesmo Banco Privado Português em que Jorge Jesus tinha as poupanças investidas, não é que agora lhe façam muita falta com os milhões que recebeu de Benfica e que vai receber do Sporting…

O povo português é sempre tão benigno e sempre tão imbecil que nem sequer se apercebe de que o governo anunciou mais um corte de seiscentos milhões de euros nas pensões e reformas, incluindo o mesmo num plano que entregou em Bruxelas. O mesmo povo que não se apercebe das manipulações dos números do desemprego, em que os desgraçados dos desempregados que já nem sequer têm dinheiro para procurar emprego passam à categoria de “inactivos”, deixando de contar para as estatísticas. E depois andam a falar do Jesus que nem sequer ficou desempregado e pode passar a ganhar seis milhões de euros por ano, isto sem saber ler nem escrever… Se não é ser pacóvio?…

Valha-nos Jesus!

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