É preciso lata

É preciso lata

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA Há uns dias cheguei ao aeroporto da Portela vindo de paragens mais frescas. O calor húmido de Lisboa fez-se imediatamente sentir à saída do avião.

Vindo de Munique, onde todos os aviões de médio curso dispõem de mangas, voltei a sentir, como sempre, a miséria das nossas empresas aeroportuárias; um autocarro, com fracas condições, recolheu os passageiros, tipo gado empilhado.

Após uma espera que é sempre desnecessária lá seguiu o autocarro para a porta que, supunha eu, daria acesso à recolha de bagagem e saída. Como viajo sempre apenas com bagagem de mão, supunha eu que cinco minutos depois, como habitual, estaria a sair de regresso bem desejado a casa.

Qual não é o meu espanto, passageiro incauto, quando o autocarro passa a referida porta, aliás deserta e sem movimento, e se dirige, assim parece, para a ponte Vasco da Gama. Entramos numa espécie de garagem extremamente ruidosa, para os fundos do aeroporto da Portela, e o autocarro pára junto de uma porta com acesso a umas escadas rolantes. O calor é infernal, não há ar condicionado, sobem-se as escadas e começa a maratona. Estamos num dos extremos da aerogare, parece que a empresa que gere o aeroporto fez obras e inaugurou uma espécie de centro comercial onde faz gala de fazer passar todos os passageiros. Ainda pensei que fosse uma nova recolha de bagagens, mais próxima do serviço de recepção das mesmas, mas não, é mesmo um espaço comercial novo.

Muitos passageiros, jovens, muito jovens, pais com crianças de colo, idosos, pessoas com dificuldades, calor infernal, nada de novo, dirigimo-nos na direcção das setas que indicam “recolha de bagagem”. Qual não é o nosso espanto quando, depois de fazermos mais de dez minutos de caminhada pelos esconsos e pelas recém-inauguradas lojecas, lá passamos pela porta onde antes paravam os autocarros, mesmo junto do avião que nos tinha trazido e lá nos dirigimos à velha recolha de bagagem, ineficaz e soturna como sempre.

De mim para mim fiz algumas perguntas. Quem seria o cromo que decidiu o novo trajecto? Seria uma espécie de “chato” compulsivo que resolveu incomodar legiões de passageiros? Será que a nova maratona da Portela tem a ver com a exibição das novas fancarias e lojas de hambúrgueres mal cheirosos que enxameiam o novo espaço? Será que a empresa que gere o espaço tem orgulho na dimensão “internacional” da sua chafarica na Portela e a quer exibir mostrando “o aeroporto de Lisboa é mesmo grande” aos passageiros estrangeiros que não conhecem o exíguo espaço aeroportuário de Lisboa? Ou será para parecer que não se espera a eternidade do costume pelas malas fazendo a malta dar umas voltinhas inúteis ao aeroporto? Será um programa de desporto compulsivo para melhorar a forma dos turistas gordos americanos e alemães? Será uma demonstração da tremenda capacidade de um funcionário superior que se quer mostrar indispensável chateando meio mundo? Uma espécie, ou émulo, de Fernando Nunes da Silva que, ao ver como está o trânsito em Lisboa, não quer ficar atrás? Ficam as perguntas para quem de direito. Nós ficamos com o calor infernal da garagem, o mau cheiro dos hambúrgueres e a maratona nas pernas, isto depois de oito horas de viagem.

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