Este não é o futuro de Portugal

Este não é o futuro de Portugal

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
É notável como a questão de o PS ter maioria absoluta ou de o PSD poder ganhar as próximas eleições tem atormentado alguns comentadores. Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Henrique Monteiro, entre muitos outros, afadigam-se nesta questão absolutamente irrelevante.

É uma questão que prova a completa ausência de sentido da realidade de Portugal e dos portugueses. É certo que os governos são eleitos pelo povo, que elege para os cargos públicos uma espécie de espelho da sociedade.

No entanto, o sistema partidário português, uma espécie de mafia fechada, afasta os melhores da vida pública, pune severamente os mais capazes e honestos, nomeadamente com maus ordenados, e favorece a corrupção.

O sistema de enfileiramento da carreira política favorece, e já o explicámos aqui, a promoção de pessoas sem espinha, que dizem sim a tudo o que os chefes querem, sem questionar, para, depois de chegados próximo do topo, começarem a mastigar os despojos que lhes chegam através de múltiplos esquemas corruptos, alguns dos quais não necessariamente ilegais, mas altamente imorais, como prova o exemplo dos ministros que passam para conselhos de administração de empresas que tutelaram e vice-versa.

Casos como os vistos dourados, indiciando altos quadros do Estado ligados a figuras do actual e anterior governos, ou casos como o de José Sócrates são epifenómenos, sintomas de uma podridão que ataca por inteiro o sistema político, judicial, o sistema legislativo, o aparelho de Estado e regime.

Quando Pedro Passos Coelho afirma que “o país está melhor” mostra um profundo desrespeito pelas pessoas que vivem em Portugal. O país são as pessoas, não é o défice ou algumas empresas que são altamente beneficiadas.

Olhando para as contas públicas encontramos uma dívida colossal, cujo pagamento é diferido no tempo, nomeadamente os empréstimos da Troika, e cujo peso se sentirá com toda a sua força dentro de cinco anos, afectando como um jugo terrível as próximas gerações e impedindo qualquer crescimento viável a médio e longo prazo.

Dizer que o país está melhor é apenas autismo e insensibilidade perante a pobreza e o desemprego avassaladores, jovens sem esperança no futuro cujo reflexo é uma das piores taxas de fecundidade do mundo, emigrante forçados a sair, a destruição de sectores vitais como o da saúde e da educação, a destruição da pouca investigação científica nacional, a decadência das universidades e a venda a interesses estrangeiros de sectores vitais da economia, como os casos da PT, da EDP e REN, dos CTT, Portugal é único país da Europa que os privatizou a cem por cento, e agora da TAP entre tantos outros.

Vender a retalho os bens essenciais e instrumentos centrais de regulação do país, que actuam praticamente como monopólios, ou elementos centrais de oligopólios, é melhorar o país? A traição da violação do acordo pela parte da brasileira OI não seria motivo para uma intervenção musculada na PT?

Trair o país e os portugueses é melhorar o país? Um país sem capital e com trabalhadores na miséria é um país melhor?

Perante isto tudo o presidente da república faz alocuções ridículas, na forma, o que é a menor questão, mas, sobretudo, de conteúdo absolutamente vazio, uma espécie de Pôncio Pilatos piorado que deixa Portugal ser destruído enquanto vai apelando a consensos impossíveis e pede que se prepare o período pós-eleitoral…

O país não são os partidos, os comentadores que falam do país como um campo de batalha entre PS e PSD que, depois de descontadas as abstenções, recebem juntos muito menos de 50% dos votos dos portugueses, são autistas e mereceriam castigo severo, o país são as pessoas e a sua história, o seu património e a sua cultura, Portugal não é um terreno livre para ser tomado por capitais chineses ou angolanos que oferece sol e criados aos estrangeiros.

Se o regime não for mudado depressa, a estagnação, a decadência e a extinção são o futuro de Portugal. É centrando o discurso na mudança radical de regime que poderemos enfrentar ainda o futuro.

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  • Pedro Sousa

    Obrigado pelo diagnóstico da doença. Já muita gente o fez. E a cura? Não quer dar umas ideias?
    Pela minha parte estou a trabalhar para que mais poder passe para as mãos dos cidadãos, para que possam, de facto, fiscalizar a actividade política e sancionar os eleitos que não cumpram aquilo para que foram mandatados (programas eleitorais). Temos que sair das palavras e passar aos actos.

    Abraço