Face Oculta – a ponta do iceberg

Face Oculta – a ponta do iceberg

MANUEL SILVEIRA DA CUNHAO que se passou com o processo Face Oculta, uma teia criminal, uma associação criminosa para tirar partido dos recursos de todos os portugueses em proveito de alguns interesses privados, foi exemplar. Utilizando conexões políticas e empresariais em empresas públicas, presentes, subornos, luvas ou comissões, Manuel Godinho e seus apaniguados mantinham grande ascendente sobre contratos, furtavam materiais, manipulavam concursos utilizando informação privilegiada, sobre-facturavam serviços sobre empresas públicas, violavam deliberadamente as regras das hastas públicas.

Isto era feito em conluio com altas individualidades ligadas ao Partido Socialista: recordamos que o ministro Mário Lino chegou a intervir em questões em que Manuel Godinho era parte interessada alegando interesses de gente importante do PS.

Não espantaria num Estado de Direito ver Manuel Godinho, e a sua teia, condenados a pesadas penas de prisão. Armando Vara, ex-ministro do PS, metido em diversos casos duvidosos, como a célebre Fundação para a Prevenção e Segurança que levou Sampaio, quando era presidente da república, a intervir e forçar a sua demissão, ficou “chocado” com a condenação. Dá-se aqui uma total inversão moral: já não choca ver os alvos de presentes de milhares de euros, de relógios caríssimos ou mesmo automóveis de topo de gama, como provado em tribunal, serem ilibados e saírem do tribunal pela porta grande. Também é interessante ver o advogado Ricardo Sá Fernandes aborrecido com o sistema e discordando do mesmo, sic transit gloria mundi, depois de perder repetidamente na luta contra a corrupção. Deve ter assumido que seria mais fácil ganhar na Justiça pelo lado contrário, isto sem qualquer desprimor pela sua actividade digna de advogado, pois até os corruptos têm direito à defesa.

Tudo isto, no entanto, são faits divers. Depois de recursos sábios e prescrições milimétricas, esta gentinha nunca pagará um tusto, nem passará uma noite na cadeia. É sabido que apenas Vale e Azevedo, que abusou demasiado da sorte, sofre as penas de um Portugal mesquinho e corrupto por inteiro.

Tudo isto é folclore. A CP e a REFER produziram ao Estado uma dívida de mais de dez mil milhões de euros. É monstruoso. É o BPN e o BES juntos. A ministra das Finanças, recorde-se, foi uma das gestoras deste monstro. Anos de gestões miseráveis nestas empresas públicas condenaram os portugueses a um fardo quase eterno que pesará por muitas gerações. Muitos Godinhos passaram, muitos gestores e muitas empresas “amigas” meteram dinheiro ao bolso de muitas maneiras e ninguém investigou. Pode dizer-se que Manuel Godinho, Vara, os Penedos, e outros gestores menos conhecidos, mas mais sintomáticos da corrupção generalizada que se vive no país, foram condenados. Realmente é “chocante”, não por terem sido condenados, mas por serem os únicos, por terem tido o azar de encontrar investigadores sérios, determinados e quase únicos no panorama português. O chocante é Armando Vara ter tido a desfortuna rara em Portugal de ter pela frente um colectivo de juízes liderado por um sério juiz transmontano que percebeu que 25.000 quilómetros eram os 25.000 euros pagos a troco de favores e tráfico de influência pelo sucateiro de Ovar e não se deixou levar na arenga jurídica de advogados pagos a peso de ouro, provavelmente com o dinheiro subtraído a todos os portugueses e que nunca será devolvido.

Agora seria tempo de investigar a fundo as gestões de dezenas de anos de empresas públicas que mexem em milhares de milhões e que arruinaram Portugal. Eu começaria pela CP e pela REFER. Os sintomas são mais que muitos, apenas a ponta do iceberg foi julgada e condenada em Aveiro.

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