Feios, porcos, maus e corruptos

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Manuel-Silveira-da-Cunha-av-115x150Manuel Silveira da Cunha

 

São dias de ira, dias de cólera. A guerra, o terrorismo, o medo matam milhares de pessoas. Os refugiados, autêntica massa invasora presságio de uma nova movimentação civilizacional, ameaçam as consciências dos povos europeus e mostram como os políticos da velha Europa são incapazes e miseráveis.

Reúnem-se os ministros e presidentes em areópagos, fingem que encontram soluções. Por que razão os “governantes da Terra se reúnem e tomam conselho contra o Senhor e o seu Ungido”? Em sorrisos forçados forjam cotas que não têm intenções de cumprir e que, de facto, não cumprem?

A razão é simples, os dirigentes políticos dos países deixaram de ser estadistas, deixaram de se preocupar com geopolítica estratégica. Gerem apenas em função do seu futuro pessoal, dos seus negócios e dos seus futuros enriquecimentos. Gerem a pensar nas suas carteiras e apenas prestam serviços a quem, verdadeiramente, os elegeu, que foram as máquinas partidárias, aqui e por toda a velha Europa, financiadas por corporações gigantes e magnatas sem qualquer consciência e sentido social, verdadeiros piratas do capital internacional. Os povos, estúpidos rebanhos, são manipulados por esta gentalha em que Juncker, Jeroen Dijsselbloem, Barroso ou mesmo Merkl são apenas rapazinhos obedientes ou eficazes capatazes, sem qualquer noção do interesse estratégico da Europa e dos povos europeus. Enfim, tudo consequência de uma democracia doente, que governa em função do dinheiro contra os cidadãos.

Todas estas crises são fruto da demissão dos dirigentes europeus, com o consequente absentismo do palco internacional. O deixar aos Estados Unidos, enfraquecidos economicamente, o papel de manter a segurança no Mundo, chefiados agora por um presidente também ele abstencionista, um prolixo fácil de frases eloquentes mas de actos falhados, gerou esta pressão sobre a Europa.

Não ter uma política séria em África, descolonizada sem responsabilidade, uma política que elimine os corruptos e promova verdadeiramente o desenvolvimento, algo que não interessa aos consórcios económicos europeus, mais interessados nas negociatas que proporcionam matérias-primas a preços de saldo e a inexistência de uma política para o Médio Oriente, entregue, por um lado, a Israel, com as suas atrocidades constantes, com o qual o Estado Islâmico não se atreve a brincar, e por outro lado aos extremistas islâmicos, loucos e medievais, actuando sem rumo nem tino na Síria, deixando o Iraque e o Afeganistão à sua triste sorte, permitindo à Arábia Saudita, pretenso e bárbaro aliado, o financiamento do terrorismo sunita contra os xiitas.

Finalmente, não sabendo o que fazer com a Turquia e o Egipto, uma Europa sem exército, sem política comum, sem concertação diplomática é alvo da pressão da qual é amplamente responsável. Isto para não falar do papel da política económica em face de tigres de baixos salários e condições miseráveis para os povos, como a China.

Acabar com esta crise dos refugiados tem uma receita extremamente fácil de enunciar, mas muito difícil de realizar: chama-se concertação estratégica e política externa comum forte. Política externa que tem de ter um braço armado, senão continuará a ser uma ridícula manifestação de intenções. É necessária uma reflexão do papel da Europa no mundo e saber se nos vamos continuar a lamentar as mortes de crianças algures numa praia europeia, reflexo também de uma forma de fazer política herdeira do mediatismo da televisão, em que um facto chocante mostrado num ecrã vale mais do que milhões de mortos escondidos, ou se vamos fazer algo.

Intervir a sério contra o Estado Islâmico e ajudar verdadeiramente África a sair do buraco em que os dirigentes corruptos europeus e africanos a meteram. Simples, não é? Não, se continuarmos a votar nos mesmos sem romper com o sistema.

O futuro da Europa passa também por Portugal.

 

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