Manuel Silveira da Cunha

Existem indícios muito preocupantes sobre a efectiva capacidade deste governo para lidar com os problemas e os diferentes interesses. Efectivamente, sem uma maioria no parlamento, o governo de António Costa vê-se numa situação de perigoso equilibrismo entre a espada da esquerda e a parede inamovível de PSD e CDS.

Mas a situação é mais complexa do que isto: além das forças parlamentares há mosquitos e moscas que picam constantemente e os lobos uivadores e cães raivosos a morderem as canelas de António Costa. Sintomas da fraqueza de Costa encontram-se na resolução falsa da situação da TAP, uma solução que Costa anuncia como salomónica mas que é mais à Pilatos: o governo mete o dinheiro mas os privados, beneficiados por Passos Coelho com um brinde já expirado o prazo do último governo, é que mandam na empresa.

Na categoria de mosquitos e moscas encontram-se os mil e um interesses dos sindicatos, interesses de empresários de transportes vociferantes, mais ou menos assanhados, que se podem tornar extremamente perigosos para o país se o governo não demonstrar ter pulso, pulso que está a ser tomado pela corja habitual, e pulso ou se tem ou não se tem, isso vê-se logo no primeiro instante. O que se passa com a TAP e os barões do Porto é sinal de pulso fraco. Costa recebe, Costa fala, Costa promete, Costa tece uma teia de compromissos irreconciliáveis uns com os outros e acaba por se enredar a si e a todo um país. Depois de tomado o pulso e de se perceber que o governo não o tem, os mosquitos transformam-se em leões.

Na categoria de cães raivosos e lobos uivadores temos as instituições europeias, chefiadas pelo ministro das finanças da Alemanha. Costa, entalado entre as promessas à esquerda, tipo hospital do Seixal, 35 horas para a função pública, mais dinheiro para certas autarquias do PCP, coisas que se mantêm secretas num jogo dúplice com os comunistas, atacando Costa na rua e sorrindo com palmadinhas nas costas em S. Bento, entalado num Bloco de Esquerda que para além da eutanásia qualquer dia pretende legalizar o casamento entre animais e humanos, martelado contra a bigorna do PSD e CDS, tem ainda de enfrentar o vociferante ministro alemão, e os cães raivosos liberais das diferentes instituições europeias, às quais cede fingindo que não cede.

Na categoria de lobos uivantes, incluo também os jornalistas e os comentadores económicos, arautos da desgraça, algumas vezes sem razão nenhuma, como no caso da carga fiscal que realmente não é tecnicamente incrementada, mas inundando o espaço público de negativismo face a Costa. É certo que Costa é um nulo, um carreirista político, que nunca fez nada na vida, nunca contribuiu com uma ideia, um pensamento, nunca escreveu um texto que se pudesse ler sem uma convulsão estomacal ou um tédio mortal, nunca Costa conseguiu enunciar um postulado vibrante ou motivador nas suas intervenções repetidas e constantes na “Quadratura do Círculo”, tudo em Costa é morno, tépido, flácido, negociado, tudo em Costa é um progressivo ascender na carreira política negociação a negociação, lugar a lugar, sem nunca deixar obra, sem nunca produzir uma marca que não sejam engarrafamentos horríveis em Lisboa e turismo de enxames de selvagens para encher os cofres de alguns, poucos, ligados aos negócios que a Câmara de Lisboa proporciona, mas Costa merece algum benefício da dúvida no que diz respeito ao orçamento.

Pelo menos teve a boa ideia de escolher Centeno, um académico competente, para elaborar o orçamento de 2016, e os lobos uivadores uivam por razões ideológicas e não técnicas. Seria de esperar mais cuidado por parte dos comentadores, pois é o país que está em causa e não o lugar efémero e rapidamente esquecível de António Costa. Nesse sentido, a posição de Marcelo Rebelo de Sousa é a mais construtiva. Deixar governar e tentar que Portugal saia deste pesadelo económico e orçamental dos últimos anos o mais rapidamente possível.

Nota final

Os senhores do Norte são agora chefiados por Rui Moreira, o menino da Foz tornado num chefe tribal, que substitui Pinto da Costa na liderança do Porto, embora se arroguem de todo o Norte, contra o resto do País. A TAP quer sair do Porto, mas se aquilo é lucrativo virão outras ocupar o seu lugar numa economia de mercado a funcionar. A posição histérica, hirsuta, provinciana de Rui Moreira não se coaduna com a sua imagem de senhor cosmopolita.

O pior é que António Costa cede à histeria e ao comodismo da casta mimada dos chamados “empresários” do Norte. Se as viagens a partir do Porto são tão lucrativas, façam então uma companhia aérea local para voar para Bruxelas, Milão e outras cidades tão importantes para os interesses estratégicos nortenhos e para o Sr. Moreira poder voltar à noite das compras em Londres. Mas Costa dá-lhes ouvidos, numa questão que diz respeito apenas a um director de operações de uma companhia aérea. Onde é que isto vai parar? Acabará Costa a negociar com os sindicatos do grupo de cantares de Quadrazais?

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