Guterres e Merkel

Guterres e Merkel

Em primeiro lugar gostaríamos de elogiar o sucesso de António Guterres como futuro Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas. Provou que era o melhor e que o melhor deve ocupar o lugar. Apesar de não ser do sexo certo, apesar de não ser da cor ou religião certa, provou que o melhor candidato deve exercer o lugar.

Não faz o menor sentido que alguém menos preparado, menos empenhado, ou com pior programa e, cumulativamente, num lugar tão sensível como o de SG da ONU, deva ser eleito apenas porque é mulher ou não é da parte certa do sistema de quotas rotativo, em termos rácicos e geográficos, que tem imperado até hoje na eleição de uma peça tão crítica no jogo das nações. Um sistema miserável que teve como expoente máximo (ou mínimo) no cargo de SG da ONU uma espécie de assessor do ministro dos negócios estrangeiros da Coreia do Sul, figura insignificante, que, cúmulo dos cúmulos, andou a apelar ao voto numa “mulher de Leste”, numa perpetuação do chamado politicamente correcto que acaba a promover a mediocridade de uma Kristalina Georgieva à custa da transparência e do bem estar global do Mundo inteiro.

Ver Ban Ki Moon a apoiar uma “mulher de Leste”, qualquer que esta fosse, é uma coisa – afinal, este SG é o apogeu do ‘politicamente correcto’ que elege um irrelevante, um nulo, um incapaz de resolver qualquer coisa, um discursador de banalidades e de lugares-comuns, porque é isso mesmo, um nulo, incapaz de incomodar, que não obsta às negociatas, uma figura do sistema de compromissos e de equilíbrios desastrosos, um sistema em que não existem estadistas mas sim políticos. Ver Angela Merkel e a comissão europeia a suportá-la é outra, e demonstra uma desastrosa visão do Mundo.

Putin é uma espécie de Czar, afirma-se como um estadista. Pode servir interesses obscuros, mas é o único que sabe o que está a fazer no círculo de interesses do Mundo. Atrás de Putin temos os chineses, um colectivo muito experiente, sem personalidades marcantes mas com um sistema de mandarins, os cultos funcionários imperiais chineses, que ressurgiu nos últimos trinta anos, que dispensou de facto o comunismo e que funciona como uma aristocracia, disfarçada de comité central, um sistema acéfalo em que o presidente é uma cópia da figura decorativa que muitos imperadores chineses assumiram no passado; no fundo, um “primus inter pares”. Este sistema é muito eficaz e ocupa um lugar que a pouco e pouco será primacial, um retorno muito forte ao sistema internacional, e não apenas regional, desde que a dinastia Ming se retirou voluntariamente do consórcio das nações. Face a estes potentados extraordinários, o Ocidente tem os tontos dos ingleses, os néscios dos franceses e um fraco presidente americano. Aliás, não há presidente dos Estados Unidos, nem vai voltar a haver nos próximos anos. O último digno desse nome foi Ronald Reagan, e mesmo esse teve as suas fraquezas.

O Ocidente vê-se assim órfão. O único que se afirmou no plano da ONU foi um engenheiro, formado no Instituto Superior Técnico, a grande e quase única instituição de ensino portuguesa digna de ombrear com as grandes escolas do mundo. Afirmou-se apenas por demonstrar ser competente, sério, honrado e humilde. Como português, tenho de elogiar e sentir-me honrado com a distinção que alcançou. Mesmo sabendo que Guterres foi eleito fazendo compromissos, mesmo sabendo que vindo de uma potência decadente, um pobre País fraco do Sul da Europa, também beneficiou da complacência dos grandes que preferiram apostar num candidato de consenso a tentar, pela força, impor um candidato preferencial que seria sempre vetado pelos outros.

Apostar em Kristalina via-se à légua que seria afrontar a Rússia e favorecer imediatamente Guterres. A Rússia poderia votar em Bukova, mais próxima do modelo psicológico do Kremlin, remotamente “socialista”, mas nunca poderia votar em Kristalina. Mal a vice-presidente da comissão europeia apareceu na liça, Guterres eliminou imediatamente as dúvidas que suscitaria entre os russos. Os votos de desencorajamento que surgiram quase sempre, da Nova Zelândia e da Rússia, desapareceram imediatamente e Guterres, voilá, foi eleito, curiosamente com o apoio da Inglaterra e da França, que aproveitaram para desfeitear a Alemanha e a Comissão, pela calada. Resta a espantosa idiotia de Merkel, incapaz de ver o óbvio, e o seguidismo também acéfalo do PPE e da comissão europeia, coroado pelo coraçãozinho hipócrita de Juncker no cartão que mandou a Guterres. Tudo muito pouco ediricante.

Para a histórica fica Guterres que, depois de João XXI, como dizia Adriano Moreira, é a segunda figura portuguesa a ocupar um lugar de liderança mundial. Parabéns a Guterres por se ter afirmado. ■

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